Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

O Medo

Retornei esta madrugada de mais um trabalho pelo interior das Gerais. Desta vez estive no sul de Minas numa agradável e limpa cidadezinha próxima a Caxambu e foi lá que protagonizei, num momento ‘Triller’, uma cena que foi incluída na galeria dos Medos inesquecíveis que passei em trabalhos com o Patrimônio Cultural. Vivenciar este Medo me fez recordar dos outros dois anteriores que me marcaram.

A primeira experiência ‘inesquecível’ aconteceu na bela cidade de Aiuruoca. Estive lá uns anos atrás para inventariar obras da Igreja Matriz e soube, logo ao chegar, que existia um conflito entre o pároco local e o pessoal que trabalhava com o patrimônio. Até aí novidade nenhuma, normalmente os padres são os maiores dificultadores para os pesquisadores inventariar acervos eclesiástico e, muitas vezes, são os responsáveis por execuções desastrosas de ‘restaurações’ em peças sacras, muitas delas obras raras. Inclusive, estes dias ouvi numa outra cidadezinha que o padre ao ser questionado de uma pintura horrível realizada numa imagem de Nossa Senhora da Conceição teria dito: “As imagens não são peças de museu e sim objeto de adoração, como tal, podemos pintá-las como bem entendemos”. Enfim, estamos acostumados a lidar com estas situações. Na Matriz de Aiuruoca os sinos seriam inventariados, então, conversei com o sacristão e disse que ia subir na torre para fazer o registro dos sinos, lembro do olhar dele de desaprovação, mas sem qualquer palavra. Subi as velhas e carunchadas escadas de madeira lentamente, pois elas rangiam ao toque dos pés e pareciam que iam se partir, mas lá fui eu corajosamente. Lá no alto da torre vi o conjunto de sinos. Lindos! A cidade pequenina podia ser vista daquela altura toda. As paredes da torre eram grossas, talvez mais de um metro de largura, assim, subi numa delas para conseguir ler a inscrição de um dos sinos, que ficava na parte superior dele. De um lado estava o abismo, a praça pequenina bem lá em baixo, do outro o cubículo da torre da Matriz. Como não tenho problemas com altura, fiquei anotando os dados grafados no sino, dependurada na parede da torre. De repente, o sacristão começou a badalar exatamente este sino que eu estava anotando. Os sinos tinham cordas presas ao badalo que o sacristão executava de um andar abaixo daquelas escadas carcomidas, sem precisar chegar até a torre. Podem imaginar o susto que eu tomei? No desespero pulei para dentro da torre, graças a Deus! Senão não estaria agora escrevendo. Lembro de ter ficado alguns minutos trêmula, caída no chão da torre, com o coração desgovernado ouvindo aquele replicar de sinos ensurdecedor. Nem sei como consegui descer aquelas escadas apertadas, de tanto que tremia. Quando consegui descer para a Matriz o sacristão tinha desaparecido. Recordo ainda que logo em seguida começou uma missa a São Sebastião.

O outro momento dramático aconteceu numa cidadezinha próxima a Cordisburgo. Cheguei ao quase lugarejo bem cedo e fui direto para a prefeitura. Deixei ali minha bolsa com roupas, material de campo, etc, e saí com mochila para os trabalhos do dia, como sempre acontece. No final da tarde, um funcionário da prefeitura me acompanhou até a pousada onde deveria ficar naqueles dias em que estaria ali fazendo os levantamentos. Já tinha anoitecido quando caminhamos para lá. A cidade, muito pequena, era como um quadrado de ruas paralelas. A prefeitura ficava mais ou menos no centro daquele quadrado. Caminhamos na direção leste até chegar à última das ruas do lugarejo. A pensão ficava exatamente naquela última rua. Atrás dela uma mata enorme, nas laterais terrenos desocupados. Apenas do outro lado da rua existiam casas distantes. Comecei a ficar preocupada com aquele isolamento todo, mas até aí, tudo normal. Encontrar pousadas em lugares pequenos do interior de Minas é sempre muito complicado, já me hospedei em cada lugar... Uma senhora me recebeu na pousada e o funcionário da prefeitura foi embora, então, ela me levou até o quarto reservado para mim. O que poderia chamar de saguão e recepção da pousada com um sofá e televisão, mais o refeitório ficavam na edificação principal, muito bem arrumada, em estilo colonial. Os quartos dos hóspedes ficavam do lado de fora desta edificação principal, sem qualquer ligação a ela. Comecei a ficar nervosa quando percebi que a porta do meu quarto daria para os arredores da pousada e a janela dava para aquela mata escura, mas meu desespero chegou ao extremo quando a senhora me disse: “Amanhã cedo volto para fazer o seu café”. Ela não dormia na pousada, a casa dela que ficava próxima à prefeitura não tinha telefone, o dono morava em outra cidade, não tinha nenhum outro hóspede e eu teria que ficar ali sozinha naquele ermo de mundo. Foi uma noite terrível! Obviamente não dormi, cochilava rapidamente e era despertada constantemente por barulhos externos e ranger de janelas. Mais ou menos às cinco horas da manhã levantei, olhei o que ainda faltava para fazer – era muita coisa! programando os trajetos do dia. No total seriam mais de trinta fichas de inventário, entre celebrações, bens móveis, imóveis e integrados, o acervo da igreja, o acervo do asilo e até o maquinário de uma fábrica. A parte boa era que o dia anterior tinha rendido bem. Pouco depois das sete horas saí da pousada e trabalhei incansavelmente até às 22:30, sem almoçar, parando apenas para lanches rápidos. Neste horário terminou uma reunião com funcionários da prefeitura, no qual estava o rapaz que me levaria até a rodovia mais próxima para pegar o ônibus e retornar para Belo Horizonte – em muitos lugares não passam ônibus de linha, sendo necessário que os moradores e visitantes se desloquem para as rodovias onde os ônibus trafegam em direção à capital ou outros lugares. Com o levantamento concluído, o rapaz me levou até a pousada ‘assombrada’, retirei minhas coisas e parti dali rumo a BH naquela mesma noite. Ainda sinto calafrios quando me lembro daquela noite tenebrosa.

O último top of mind aconteceu esta semana no sul de Minas. O ônibus partiria de Belo Horizonte às 23:00 chegando ao lugar às 04:00 da madrugada. Fui informada de que alguém da Prefeitura local iria me esperar na rodoviária. O trajeto do ônibus era Belo Horizonte x São Lourenço e eu deveria descer antes de chegar a São Lourenço. Coloquei o celular para despertar às 03:50 para não correr o risco de passar do meu destino e segui viagem tranqüila. Acordei por volta das 03 horas da madrugada e não dormi mais. Quando chegou ao meu destino, o motorista avisou e eu desci. A madrugada estava escura e gelada, a serração muito baixa não deixava ver muita coisa além do telhado da pequena estação rodoviária. Não tinha nada aberto, nem viv’alma por ali, nem qualquer sinal da pessoa que iria me esperar. Quando desci e vi aquela situação, me voltei para o motorista e confirmei se ali mesmo era onde deveria descer. Ele balançou a cabeça numa afirmativa. Olhei de novo em volta, parecia um filme de terror. O ônibus já ia saindo e eu voltei de novo para o motorista: “Senhor, por favor, o senhor tem certeza? Não tem nada aberto por aqui?”. Ele balançou a cabeça numa negativa. Quase implorei para ele não ir embora, mas percebendo o ridículo da situação engoli em seco e me calei e o ônibus se foi neblina adentro. Gente, que medo! Eu estava completamente sozinha, no meio do nada, numa escuridão terrível. Comecei a tremer, não sei se mais de frio ou de medo. Acho que os dois. Consegui organizar as idéias e peguei na mochila a folha da ‘logística’ que levamos sempre para campo, com o nome e telefone das pessoas que devemos procurar ao chegar à cidade. Num primeiro momento não conseguia ler nada, os olhos embaralhavam as letras e aquela meia luz fraca de postes distantes não me deixavam ler. Fechei os olhos, respirei fundo, tentei ficar calma e peguei o papel de novo. Consegui ler, mas ali não tinha nenhum número de celular, apenas telefones fixos da prefeitura. Deus do céu! Que desespero. Resolvi fazer as únicas coisas possíveis: manter a calma e a racionalidade para não ser surpreendida por alguma eventualidade desagradável. Sentei encolhida num banco de pedra molhado que tinha por ali e comecei a orar, pedindo a Deus para mandar a pessoa que iria me buscar. Uns doze minutos depois a pessoa chegou se desculpando pelo atraso e minha aflição terminou.

Adoro o meu trabalho, sou apaixonada por pesquisa histórica e como viajo bastante estas eventualidades são inevitáveis. Posso dizer seguramente que os prazeres que o meu trabalho me proporciona e as histórias de vida que tenho contato valem por cada um destes Medos - com letra maiúscula - aterradores, mas, obviamente, preferiria que eles não existissem. Há também o fato que eu costumo dizer que quando vou para algum lugar os anjos chegam antes de mim.

"Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam". Clarice Lispector em "A hora da estrela", a triste história de Macabéa.

Imagem: Edvard Munch - O Grito. 1893.

"Heal the world / Make it a better place / For you and for me"

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Difícil Sim










Difícil Sim

Poderia ter passado despercebido este episódio sucedido há mais de 10 anos, ou foi há 10 meses? Não importa. Caso é que não foi um fato isolado, mas um acontecimento recorrente nesta minha sucinta biografia. Há em nós uma previsibilidade, uma série coordenada e repetida de ações que para o observador atento fica razoavelmente fácil prever se diremos sim ou não, se vamos entrar ou sair, se vamos sorrir ou correr, é o princípio da física quântica, um universo de incertezas centrado nas possibilidades. Mas, voltando à vaca fria, cheguei do trabalho naquela tarde em que vou narrar o fato citado, com a minha habitual cara de gentileza e fui abordada pelo também gentil dono da casa com um jarro de caldo de cana. Boba que não sou nada e da roça que sou desde que tinha umbigo comprido, sei que caldo de cana ou garapa, como dizem na minha terra, tem que ser bebida na hora, você faz e toma, pronto, ali ao pé da engenhoca, vendo o caldo doce entre verde-musgo e branco da espuma escorrer direto para o seu copo. Mas aquela que me era oferecida deveria estar ali na geladeira há algum tempo, geladíssima que estava e nem havia nenhuma engenhoca ali naquela casa bonita para ter sido espremida a tal garapa em, no mínimo, 6 horas antes. Observei e recusei educadamente, gentilmente, como me é habitual quando alguma coisa não é do agrado. “Não, obrigada, acabei de comer sei lá o que na rua”, inventei uma desculpa que, convenhamos, era satisfatória. Todo mundo pode dizer NÃO a alguma coisa, não temos que dizer SIM sempre e quando se diz que não é porque é não mesmo, correto? Nem sempre. Aquele senhor leu o meu “não” como alguma modéstia minha, educação talvez, em recusar o que me era oferecido ou até timidez, que eu tinha de sobra na ocasião.

Penso que as pessoas deveriam respeitar o “não” das outras ou o “sim”. Tá bom, confesso, que eu já insisti para “não” virar “sim”, fazemos isto sempre e não deveríamos, refleti agora, recordando deste e de outros episódios catastróficos.“Meu bem, vamos comigo ao hospital visitar a avó de fulana?”, “Vou não, domingo a tarde, meu futebol, vai você que prometeu que ia”, “Ah, amor, por favor! Ela está tão doentinha, nas últimas, você sabe”, “Não vai dar não, você sabe quem vai jogar agora? Já estou aqui com minha cervejinha, ia ter que tomar banho, mudar de roupa. Vai você, eu fico aqui te esperando”, “Ô meu bem, é um ato de caridade até, sabia? Coitada, ela ficou lá sozinha a semana inteira naquele hospital horrível, quando chega o domingo todo mundo recebe visita e ela não, os parentes moram longe. Por favor, vamos comigo?”, “Futebol, futebol”, “Fica com este seu maldito futebol, eu vou, você nunca faz nada que eu peço mesmo, e se ela morrer você vai ficar sentindo culpa para o resto da vida”, depois de bater o pé irritada e sair de cara amarrada é óbvio que ele vai largar a sua cervejinha, o seu futebol, o seu descanso no domingo e me acompanhar, emburrado, é claro, mas vai trocar aquele seu “não” justificável pelo meu “sim” plausível.

Fazemos isto o tempo todo, com os pais, com amigos, com colegas de trabalho e não devíamos fazer, pois me recordo amargamente daquele “não” que eu disse anos ou meses atrás e que teve que ser revertido num “sim” por pura educação. Toda vez que temos que mudar o nosso “não” por um “sim”, por causa da vontade do outro, quem “paga o pato” é a gente, não o outro, é óbvio. Então, se amássemos a gente o tanto que amamos o outro, manteríamos o “não” sempre ou pelo menos na maior parte dos casos ou pelo menos naqueles casos em que é razoável dizer “não”, como era o caso daquela garapa azeda.

Eu deveria ter dito simplesmente “obrigada, mas este caldo de cana deve estar estragado, pois tem que ser consumido imediatamente depois de pronto”. Mas como eu poderia dizer a verdade – que eu só intuía que poderia ser verdade, ao gentil anfitrião que me sorria com o jarro nas mãos? Ele, educado que era, ouviu o meu “não”, mas quis revertê-lo num “sim” e me apareceu com um enorme copo de caldo de cana e um sorriso ainda maior no rosto: “Deixa de ser boba, menina, você tá com vergonha de mim? Que isto. Vem cá, tome aqui na cozinha junto comigo”. E lá fui eu com cara de boi gordo que vai para o abate. Lá fui eu, contrariada por não ter a coragem de dizer outro e contundente "não", lá fui eu para o resignado "sim", como fiz exatamente igual na semana passada depois de dizer mais de dez “não” para uma situação que não me era, de longe, agradável. Previsivelmente igual.

Para encurtar a história que está por demais esclarecida, nem bem entrei no meu quarto, passados menos de 15 minutos de ter ingerido toda aquela garapa, comecei a ter uma dor fortíssima no estômago. Daquelas em que a gravidade some e deitamos, literalmente, no chão tamanha dor. A dor era tão intensa, que eu transpirava e pensava “burra, burra, burra”. Quando a dor aliviou um pouco e eu levantei do chão meio amolecida, aquela coisa azeda passeando pelo meu sistema digestivo e destruindo tudo que tinha pela frente chegou, inexoravelmente, ao meu intestino. Sem precisar desenhar a situação, uma hora depois eu saía do banheiro, com as pernas bambas, suando frio e repetindo baixinho “burra, burra, burra”. Aquele sincero “não”, que foi revertido tão gentilmente num “sim”, me deixou a ‘pão e água’ por uns dois dias.

A angústia que me consumiu durante o mal que passei sozinha nem vinha do meu organismo rejeitando o alimento impróprio, era uma angústia doída que reverbera e ainda me consome a cada vez que um educado “não” é transformado num difícil “sim”.

“A verdade é mais estranha que a ficção”. Robert Nye em: “O Relato Íntimo de Madame Shakespeare”. p. 17.



Domingo, 21 de Junho de 2009

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Boas notícias neste país tem que ser alardeadas. Se possível, acompanhadas de banda de música tocada em Coreto na Praça! Já que é tão difícil ouvir, ver e saber de uma notícia realmente boa por aqui...

Bom, mas esta é boa! José Mindlin doou, recentemente, a sua biblioteca composta por quase 100 mil volumes para a USP. Parte deste acervo, os livros sobre o Brasil ou publicados no Brasil, já está digitalizado e disponível na internet, neste site: Brasiliana USP.

"Os primeiros livros que já estão sendo digitalizados são os dos viajantes que percorreram o Brasil nos séculos 16, 17, 18 e 19. Toda a coleção das gravuras de Debret. Depois disso será a vez de todos os livros de história do Brasil e literatura brasileira. Os 17 volumes da primeira edição dos sermões do Padre Vieira, a primeira edição brasileira de “Marília de Dirceu”, de Tomás Antonio Gonzaga - só existem três unidades no mundo. De José de Alencar, a primeira edição do “Guarany”, livro raro."

Eu comecei minha deliciosa viagem virtual por aqui, depois, vim para aqui, pois adoro as imagens feitas por Debret do Brasil Colônia. E você, qual será a sua rota?

Sábado, 20 de Junho de 2009

Sou classe média


Esta semana tive uma grata surpresa. O texto postado aqui no blog no dia 20 de abril, a respeito do Gabinete de Leitura de Maruim, caiu em solo fértil. Uma voz distante, mais forte que a minha, leu a indignação a respeito daquele magnífico Gabinete de Leitura do século XIX e respondeu com coragem e dignidade ao meu espanto. Agradeço publicamente ao Sr. Guil Costa, Secretário da Cultura e do Turismo da cidade de Maruim, Sergipe, pela consciência com o patrimônio cultural de sua cidade, pela gentileza das palavras e pela prontidão na resposta. Conte comigo para o que for necessário para a defesa da memória e do patrimônio de sua cidade. Pequenas vozes unidas podem formar um coral forte e mudar a realidade do nosso país, como escreveu o Secretário. O texto e a resposta dele estão neste link.

Nosso país não precisa de mais críticas e acusações inflamadas, já sabemos o suficiente. Precisamos é de gente disposta a fazer acontecer de verdade, a sair da comodidade de suas confortáveis casas e agir na busca de um país melhor. A história está sendo escrita é agora. Não existe um outro tempo de fazer acontecer. Infelizmente, temos um Executivo, um Legislativo e um Judiciário corruptos (me perdoem as exceções, como o Secretário de Cultura citado acima e o Ministro do STF Joaquim Barbosa, graças a Deus elas existem), porque as pessoas que compõe estas esferas do poder maior do nosso país saíram da sociedade brasileira e o brasileiro, em geral, quer sempre 'levar vantagem em tudo'. Os políticos não são ETs que vieram de outro planeta, mas são pessoas comuns, eleitas por outras pessoas comuns. O problema não é este ou aquele candidato, este ou aquele partido (tirando o PFL que voltou incorporado no DEMO atualmente e que precisa ser extirpado da face da Terra), independente de quem esteja no poder a responsabilidade por cobrar, fiscalizar, participar e exigir será sempre nossa, será sempre de todos! Não podemos pensar que iremos passar o bastão da responsabilidade adiante com a entrada deste ou daquele político. E não adianta pensar: detesto política, isto não é comigo. Sinto muito, mas é sim. Se os impostos no Brasil são exorbitantes como são, se a corrupção galopa solta em todas as esferas do poder é porque a grande maioria não gosta de política. Nobre cidadão, quem paga a conta somos nós e, às vezes, pagamos em 'espécie' e com a vida, na criminalidade que corre paralela com a corrupção. Nesta corrida não há ganhadores, todos perdem.

Bons exemplos começam dentro de casa, na sua família, no seu bairro, na sua comunidade. Fazer o que é 'politicamente correto' muitas vezes é difícil, mas não impossível. Lembrem-se que os filhos seguem exemplos mais do que palavras. Se você fura o sinal vermelho, dirige após beber, faz um churrasco em sua casa e ouve música alta sem se importar com os vizinhos, anda de salto alto de madrugada e não está nem aí para o vizinho de baixo, recebe troco a mais e finge que não percebeu o erro do caixa, entra no elevador correndo para não subir junto com aquela velhinha do 16º que fala mais que seus ouvidos podem suportar, joga lixo nas ruas, pega licença médica para estender o feriado de Carnaval, desrespeita os seus pais na frente dos seus filhos, tenta dar o 'calote' em centavos no cobrador do ônibus quando está lotado, faz um 'gato' na TV paga do vizinho, paga para fazer a sua monografia de final de curso - ou recebe para fazer pelos outros, entre outras ações, está dizendo para seu filho, neto, sobrinho, vizinho que é normal transgredir. Daí para roubar da empresa ou dos cofres públicos é apenas um degrau.

Como o momento é oportuno, há uma música que não está nas paradas de sucesso, mas diz bem da postura do Brasileiro comum (e isto me inclui também).

Sou Classe Média
Max Gonzaga

Sou classe média

Papagaio de todo telejornal
Eu acredito
Na imparcialidade da revista semanal


Sou classe média,
compro roupa e gasolina no cartão
Odeio “coletivos” e
vou de carro que comprei a prestação


Só pago impostos,
Estou sempre no limite do meu cheque especial
Eu viajo pouco, no máximo um
Pacote CVC tri-anual


Mas eu “tô nem aí”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “tô nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente em Itaquera


Eu quero é que se exploda a periferia toda

Mas fico indignado com o Estado
Quando sou incomodado
Pelo pedinte esfomeado

Que me estende a mão

O pára-brisa ensaboado
É camelô, biju com bala
E as peripécias do artista

Malabarista do farol


Mas se o assalto é em “Moema”
O assassinato é no “Jardins”
E a filha do executivo
É estuprada até o fim


Aí a mídia manifesta
A sua opinião regressa
De implantar pena de morte
Ou reduzir a idade penal


E eu que sou bem informado
Concordo e faço passeata
Enquanto aumento a audiência
E a tiragem do jornal


Porque eu não “tô nem aí”
Se o traficante é quem manda na favela

Eu não “tô nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente em Itaquera


Eu
quero é que se exploda a periferia toda

Toda tragédia só me importa
Quando bate em minha porta
Porque é mais fácil condenar
Quem já cumpre pena de vida


video

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Um dia sem ela

Por um dia, apenas, queria ver como se comportariam as pessoas sem a perturbadora presença dela. Ela, que não cala, ela que não tem vergonha nem pudor de entrar nos hospitais, nos asilos, nos manicômios e nos palácios. Ela, que impõe a sua presença desde as mais paupérrimas choupanas perdidas no meio do sertão nordestino até as mais luxuosas mansões dos Jardins Paulista.

Por um dia, apenas, queria ver todas elas fora do ar, no mundo inteiro. O pai chegaria do trabalho e não tendo a condicionante presença dela, teria que olhar para os filhos. Ver os seus olhos e percebê-los crescidos ou tristes ou perdidos... Sim, ele talvez até ouvisse a sua esposa contar as amarguras do dia e naquele final de noite iriam para a cama juntos e é provável que fizessem amor como há tempos não faziam.

Por um dia, apenas, nas cidades do interior e roças perdidas no interior do país os habitantes visitariam os ‘compadres’ depois do cair do sol e sentariam nas portas de suas casas e nas varandas de suas fazendas e contariam casos antigos, como faziam os seus antepassados – alguns de assombração – veriam o céu estrelado como há tempos não viam. Sim, eles conversariam! E a cidadezinha vazia e deserta das outras noites se encheria de vozes e de cadeiras nas calçadas.

Por um dia, apenas, nos asilos os idosos não se enfiariam nos seus frios quartos de dormir – sozinhos – acompanhando todas as infindáveis novelas globais imbecilizantes. Sentariam, talvez, em círculo na sala de estar e contariam histórias de suas vidas, de dores e de amores e dormiriam sorrindo felizes embalados pelas lembranças doces da infância. Sim, se por um dia pudessem se livrar dela, do vício nojento daquelas histórias criadas nas mentes tendenciosas de diretores imbecis para quem a vida se passa nos calçadões do Leblon e de Ipanema e todo mundo é rico e feliz.

Por um dia, apenas, as crianças chegariam da escola e poderiam brincar livres, sem a obrigação de ficar horas sentadas diante dela, sem espaço para criar ou pensar. Fantasiariam, muito provavelmente, amigos imaginários e pegariam brinquedos esquecidos nas caixas de cima dos guarda-roupas. Neste dia não teriam a companhia e o exemplo degradantes de pseudo-atrizes e atores que distorcem valores morais e éticos diante de milhões de pessoas. E ainda são aplaudidos por isto!

E a dona de casa depois das obrigações domésticas pegaria aquele livro esquecido na estante – há quantos anos? E se apaixonaria novamente pela narrativa gostosa de um romance. Como é bom ler um romance!

E os homens caminhariam até a banca mais próxima para comprar o jornal do dia, como não faziam há décadas. No caminho, talvez, encontrassem o outro vizinho e mais aquele outro e praticariam a arte do ouvir e do contar! Como era bom o tempo em que as pessoas ouviam e conversavam! Claro, antes da chegada dela. A bruxa, a carcamana, a coisa ruim, a maléfica. Poderiam marcar uma partida de futebol, teriam que começar bem devagar, é claro, por causa das enormes barrigas alimentadas diante dela.

E a avó colocaria o neto no colo – catando piolhos imaginários só com a desculpa de fazer nele um cafuné.

E no horário do bendito noticiário diário não haveria gritos e brutalidades exigindo ‘calar a boca’ para ouvir notícias manipuladas. Notícias que não exigem que o telespectador pense por si só – Homer Simpson que são, que foram moldados para ser.

Neste dia, ao entrar nos lares para colher entrevistas orais ela estaria silenciosa e seria possível o diálogo e a prosa solta e descontraída. No gravador, não teria a indesejável irritante voz dela, que impossibilita ao pesquisador realizar as transcrições das entrevistas. Como seria bom este dia!

O dia mais feliz de todos, aquele em que as pessoas teriam de volta os seus sentidos – o olfato, o tato, a visão, a audição e o paladar. Imagina, sentir novamente o gosto dos alimentos sendo triturados lentamente dentro da boca, junto com a saliva, longe dos olhos pregados nela – a impiedosa. Será que ouviriam música vinda do rádio – música de verdade. Não gritos e gemidos e ‘baladinhas’ idiotas de Latinos e outros axés.

Que alegria seria um dia inteirinho sem a indesejável presença dela – a maldita televisão.

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Tem blog novo na rede: Microcosmos, da querida Ana Lúcia. A Ana tem um humor inteligente e um gosto refinado por literatura e Ciência. A moça é mineira, bióloga e, atualmente, mora em São Paulo, onde é doutoranda na USP. Foi ela quem me ensinou, durante nossa temporada nas terras quentes do Vale do Jequitinhonha quando dividíamos uma casa, as delícias da astronomia e a imensidão do universo pelas palavras de Carl Sagan. Como somos insignificantes! Outro dia ela me fez uma surpresa linda no blog dela. Obrigada!

"Somos, cada um de nós, uma multidão. Dentro de nós existe um pequeno universo." (Carl Sagan)


Domingo, 7 de Junho de 2009

Dar-te!

A Leitora - Jean-Honoré Fragonard - 1770-72 (uma de minhas telas preferidas)

Houve um tempo em que escrever era minha fuga mais que perfeita.
A escrita era o barco que me conduzia para longe de um mundo e de um tempo do qual eu não me sentia parte. Daquela janela virtual eu rodava o mundo! e poderia me comunicar com qualquer um, a qualquer tempo. Escrevia feito uma náufraga à procura de uma bússola. O blog era o meu farol, escrever era como lançar garrafas ao mar. Muitos encontraram as minhas letras gravadas naquelas garrafas diárias - como doses de um veneno amargo que eu bebia dia a dia. Bebia e doava palavras, em forma de escritos e poesias.

Um dia os meus gritos internos romperam as paredes, pulei a janela virtual e voei. Escrever, hoje, é puro deleite derramado em doses homeopáticas, palavras diluídas em milhões de águas azuis. Aqui fora tudo é tão farto de sentidos! Muitas vezes sou desperta pelos personagens que brigam para sair de dentro de mim, eu digo para eles esperarem. Há tempo de sobra ainda e eu tenho tanto que sentir.

Daquele tempo ficaram as garrafas que recolho e rememoro, como estas palavras lançadas em 01 de dezembro de 2003.

"Forjei uma fuga perfeita. Premeditada todos os dias, horas e minutos desse longo ano de 2003. Mas quando estava longe daqui e podia vislumbrar luz fora das paredes cinzas e frias do meu cativeiro, pegaram-me, amarram, amordaçaram e trouxeram-me de volta. Riram, sei que riram da minha tentativa, zombaram da minha ingenuidade e aqui estou novamente.


Agora, já com os músculos relaxados, a cabeça fria, os olhos secos, levanto-me e olho para estas paredes cinzas. Compro tintas coloridas: azul, rosa, vermelho e amarelo. Pinto as paredes cada uma de uma cor, compro vasos de flores variadas para enfeitar e perfumar minhas manhãs. Trago livros para os olhos e música para os ouvidos, desta vez não tentarei fugir, meus métodos serão sutis, tão sutis que quando perceberem já estarei longe e vou deixar minha musica, meu perfume, minha infinita alegria como lembrança da minha passagem por aqui.

Sim, porque vai ser só uma passagem, mesmo que dure um, dois ou dez anos estas paredes não significarão mais uma prisão e sim uma escada que me levará para outro lugar."

Estou indo ali conhecer mais um cadinho desta Minas Gerais, daqui uns dias eu volto!

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Domingo, 31 de Maio de 2009

Rebento


Imagem: Amy Sol (sugestão da Carina)

Rebento, substantivo abstrato,
O ato, a criação, o seu momento,
Como uma estrela nova e seu barato
Que só Deus sabe lá, no firmamento.

Rebento, tudo que nasce é rebento,
Tudo que brota, que vinga, que medra,
Rebento RARO como flor na pedra,

Rebento farto como trigo ao vento.

Outras vezes rebento simplesmente
No presente do indicativo,
Como a corrente de um cão furioso,
Como as mãos de um lavrador ativo.
Às vezes, mesmo perigosamente,
Como acidente em forno radioativo,
Às vezes só porque fico nervoso,
Rebento,
Às vezes somente porque estou vivo.
Rebento, a reação imediata
A cada sensação de abatimento.
Rebento, o coração dizendo "bata".
A cada bofetão do sofrimento.
Rebento, esse trovão dentro da mata
E a imensidão do som desse momento

(Gilberto Gil -Rebento)

Com essas palavras enviadas pela amiga Adriana, saúdo o broto estranho que se achegou e me fez balzaquiana. Rebento raro, nas palavras dela, que se quer rebento simplesmente. Rebento que nasce todo dia. A cada ano, mais rebento!

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Nossa língua: portuguesa

Nossa língua tem cada palavra estranha. A grafia é absurdamente complexa. As crianças confundem tudo quando estão na fase do letramento, pois elas escrevem como falam, soletrando as sílabas. Por exemplo, quando elas querem escrever “sininho”, vão soletrar CI-NI-O, como explicar que sininho se escreve com S e não com C, apesar de dizer claramente o CI? E o tal do NHO? Uma luta até que aprendam.
A palavra SALVAR, é com L, mas pronuncia-se SA-U-VAR. A letra U é dita, mas se escreve com L. Como explicar?
E o entendimento sobre ÃO e AM? Crianças não compreendem a diferença entre CORRERÃO e CORRERAM, para elas será sempre um monte de gente correndo. Ta bom, é necessário que saibam que o ÃO indica futuro e o AM o passado ou ação presente. Mas pior do que isto é o tal do Ç. Quem foi que teve a idéia de criar o tal do Ç??? Pra quê, meu Deus! Só para confundir os desavisados.
São muitas outras palavras ‘estranhas’. Vejamos algumas delas.
CONSEGUIU – pronuncia-se CON-CE-GUIU. A pronúncia do C é clara, mas na escrita vira S e o U, junto com o I vira GUI. Diferente da junção do G, com U e A, que é GUA e não GUI.
Por que será que VIAJAR é com J e VIAGEM é com G? Não é tudo igual?
VISUAL - pronuncia-se VI-ZU-AU, mas na escrita o Z e o U desaparecem, dando lugar ao S e ao L.
E tem AJA e HAJA. Haja paciência para agir (com G) sempre certinho.
Tem palavra que dá raiva, como DEPUTADO (agora entendi de onde vem esta palavra, já que a semelhante a ela é muito mais antiga). Outras dão vontade de abraçar como ANINHAR – que dá a idéia de uma coisa mais para dentro que para fora.
Nem tente explicar as variações de coraÇÃO, manSÃO e discuSSÃO. E caSINHA e florZINHA? E simpleSmente e InfeliZmente? O que dizer de vaSilhas vaZias? Jesus (com J, mesmo pronunciando GE) nos acode! A cabeça da gente dá voltas (com L) e mais voltas para decorar isto (ou ISSO?) tudo.
ADVOGADO, DIGNO (que tem a mesma pronuncia do GUI lá de cima), EUCALIPTO e BACTÉRIA (aqui o C tem som de QUI), ABSOLUTO tem consoantes mudas, apesar de na fala as vogais serem claras.
Tem ainda o caso das pronúncias de palavras com mesma grafia. Em Sergipe tem uma cidade que se chama RIACHUELO (escreve-se sem acento algum). Eu digo RI-A-CHU-Ê-LO (com o Ê fechado – acento circunflexo). O povo de lá diz RI-A-CHU-É-LO (com o É aberto como se tivesse um acento grave). Na Bahia, eles falam RI-A-CHÚUU-E-LO. Como será que o povo do Rio Grande do Sul pronunciaria esta mesma palavra?
Quando estou trabalhando com transcrição de documentos de outros séculos é uma loucura, começo a escrever tudo errado no dia a dia. Tenho que consultar o dicionário muitas vezes para não escrever incorretamente, no presente, aquela palavra que se escrevia de outra forma no passado. A grafia das palavras foram mudando ao longo do tempo, a mesma palavra que se escrevia com S no século XIX, chegou no século XX com Z e, talvez, hoje seja escrita de outra forma.
Às vezes eu tenho a impressão de que professor de ensino fundamental – alfabetizador – tem que ser um pouco mágico ou malabarista.
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Texto escrito no ano passado, quando lecionava no ensino fundamental e descobria, junto com as crianças, a beleza das palavras. Depois da reforma da língua portuguesa pelo mundo estou mais perdida que antes.

Tirinhas engraçadas sobre a Reforma Ortográfica













Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

De viagens e surpresas

Uma das cenas do presépio, daqui

Viajar para mim é como comer: uma necessidade. Quando fico muito tempo sem sair de Belo Horizonte, invariavelmente fico irritada e sem paciência e se a demora for longa demais, vou ficando entristecida. Algo me incomoda e eu sei que é hora de pegar a estrada, mesmo que seja para ir aqui numa cidade vizinha, de preferência que eu não conheça ainda. Tanto, que meu primeiro blog, de 2003, chamava-se ‘Viajante’. Alguns amigos virtuais que fiz nesta época ainda me chamam por este codinome que gosto bastante.

Minha mãe costuma dizer que nunca consegui juntar dinheiro para ter bens materiais – como um carro – porque eu viajo muito. Ela vive dizendo “se não tivesse viajado tanto, você hoje não ia ficar reclamando de não ter carro”. Escolhas, escolhas.

Entretanto, viajar não significa apenas pegar a estrada e sair da cidade onde mora. O que me dá prazer em viajar é a novidade. Raramente repito roteiro quando é para lugar mais distante, que despende mais dinheiro, sempre escolho novos roteiros. É possível vivenciar o processo de 'viajar' mesmo não indo muito longe. Nos finais de semana, às vezes, gostamos de ‘descobrir’ a nossa cidade, caminhar sem destino pelos bairros, conhecendo as ruas, os restaurantes, um museu diferente, alguma feira. O que fazemos muito aqui em Belzonte é experimentar sabores, que eu costumo chamar de “tour gastronômico”, que consiste basicamente em conhecer os restaurantes da cidade, mesmo em bairros mais distantes do nosso.

Estou contando tudo isto por causa do comentário da doce Carina, no último post. No último final de semana, por puro acaso, conheci o Presépio do Pipiripau. Morando aqui há exatos 5 anos (foi em maio de 2004 que zarpei do interior e vim para a capital sem emprego e sem dinheiro, mas com muita ingenuidade e sonhos na mala – valeu a pena!) ainda não havia conhecido o famoso Presépio.

No domingo, saindo para mais uma de nossas andanças pela cidade, chegamos próximo ao bairro Horto. Lembrei-me, então, que ali ficava o Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG e decidimos seguir em direção a ele. Chegando lá, tive a surpresa de saber que ali ficava o tão falado Presépio do Pipiripau e que dali a alguns minutos ele estaria em funcionamento. Entramos e fizemos um esforço físico considerável para chegar até ele correndo, afinal, havíamos caminhando uns 10 km desde casa.

Carina, aí vai um pouco da história do Presépio. O Presépio do Pipiripau começou a ser construído em 1906, por Raimundo Machado Azevedo, quando ele tinha apenas 12 anos. Ao longo da vida – que foi longa – foi acrescentando personagens e cenas ao presépio. Em outubro de 1976, o Presépio do Pipiripau e seu construtor foram para o Museu de História Natural e Jardim Botânico da UFMG. Em 1984, um ano após passar a fazer parte do acervo definitivo do Museu, o Pipiripau foi registrado no livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, pelo IPHAN.

O Presépio é composto por cenas móveis que narram o nascimento, a vida, a morte e a ressurreição de Cristo, com 580 figuras móveis, num total de 45 cenas, numa área de 20 metros quadrados. O mecanismo de funcionamento do Presépio é ligado aos sábados e domingos (é necessário ver os horários de funcionamento, ele não fica ligado o dia todo). Carretéis de madeira, barbantes e arames sustentam o sistema mecânico e elétrico dos cenários e dos personagens.

No final da apresentação – que dura uns 10 minutos – o expectador tem uma surpresa extraordinária. Chegamos a arrepiar de emoção. De acordo com este site, o Sr. Raimundo Machado, natural de Matozinhos (MG), encantou-se com a magia dos presépios ainda na infância, ao contemplar a pequena representação do nascimento de Cristo na Igreja São José, em Belo Horizonte. Dali viria a inspiração para a montagem dos personagens. Quando o autor começou a montá-lo, não o concebeu como uma obra acabada. Por razões pessoais, entre elas a carência de recursos, iniciou o trabalho em aberto e, aos poucos, foi acrescentando novos figurantes e cenários que circundavam seu cotidiano. Já naquela época, ele soube dar uma nova roupagem a um material considerado como rejeito ou lixo.

Entre 1976 e a sua morte, na década de 1990, era o próprio Sr. Raimundo quem fazia as apresentações e guiava os visitantes, no Museu de História Natural. Mesmo neste período, continuou a construção de novos personagens e cenas. Ele faleceu com mais de 90 anos (para conhecer a história do Sr. Raimundo, clique aqui)

Quem mora em BH ou quem está de passagem pela cidade, vale a pena conhecer o Museu de História Natural e, dentro dele, o Presépio. Ainda estão em exposição ali experimentos de física e química e uma parte de Paleontologia com réplicas de dinossauros e fósseis diversos – as crianças adoram esta parte! Uma dica: levem alimentos para as crianças se forem ficar muito tempo, porque a cantina de lá é péssima e sem estrutura alguma e os banheiros são deploráveis, para não dizer vergonhosos. Apesar da pouca estrutura para os visitanes, o lugar é lindo e vale a pena.

Para saber mais sobre o Presépio do Pipiripau e ver fotografias, clique aqui.
O Sr. Raimundo
Vista geral do presépio

Domingo, 17 de Maio de 2009

Amantes de Bacco

Novidade!

Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Drops

Flagrante

Enquanto aguardava na fila do Belas Artes para assistir ‘Segredos Íntimos’, vejo um rapaz, de uns 32 anos, parar diante da máquina de pipoca e ficar alguns minutos ali, maravilhado, com a boca entreaberta num sorriso congelado, vendo as pipocas branquinhas pularem da máquina estourando em direção ao vidro. Foi uma cena rápida e bela, como as protagonizadas no filme ‘Cinema Paradiso’. Nada substitui a magia do cinema antes, durante e depois das exibições das 'películas'.

No ônibus

Uma garotinha de uns 5 anos, toda vestida de rosa, com uma bolsinha rosa a tiracolo, cabelos encaracolados e um pirulito na boca sem os dois dentinhos da frente, pergunta à sua mãe:

- Mãe, o que é adotado?

- Adotado? ... silêncio. Adotado... fica repetindo sem entender muito bem a pergunta.

- A D O T A D O - soletra a garotinha. Neném adotado, mãe. O que é?

- Ah, sim. Neném adotado é quando uma mamãe pega uma criança que não saiu da barriga dela e cria...

E a mãe explica calmamente para ela, enquanto a menina olha para fora, pela janela do ônibus. Quando a mãe termina de explicar, ela tira o pirulito da boca e se vira para a mãe com um sorriso radiante e os olhinhos brilhando debaixo das grossas lentes dos óculos que usa:

- Mãe, vamos fazer isto?

Imagem: Mariana Massarini

Sábado, 9 de Maio de 2009

Ouvir contar

Sabe aquelas amigas que a gente conhece no final da adolescência, mas que parece que foram nossas confidentes a vida toda? Tenho a alegria de ter uma amiga assim. Tempos atrás, ela estava começando um relacionamento e revelou-me um temor que a assaltava sempre que novos amores se iniciavam. O medo dela não era que ele tivesse chulé, fosse grosseirão, falasse tudo errado, que tivesse uma mãe “naja”, uma ex-mulher psicopata, filhos pestinhas, ou fosse “mão-de-vaca”, conversasse com a boca cheia, enfiasse o dedo no nariz na frente dos outros, ou que fosse covarde, medroso, alcoólatra, sadomasoquista, nada disso a assustava. O que ela temia de verdade era que o assunto acabasse.

Imagina: quatro, cinco, onze meses de namoro é tempo suficiente para contar das traquinagens da infância, dos amores da adolescência e das besteiras que fazemos na juventude. É tempo bastante para conhecer sogro, cunhada, cachorros e colegas de trabalho. Neste período, revela-se o passado e as pretensões do futuro. E, segundo ela, o assunto poderia acabar. Será? Argumentei incrédula. Assunto não acaba. Nunca vi assunto acabar... mas ponderei a situação com as considerações que ela apresentou. Se era assim, talvez o assunto acabasse. “Já contei daquela vez que fomos acampar e um amigo que havia bebido demais acordou de madrugada e pegou um galho de árvore e saiu gritando feito maluco achando que era uma cobra?” “Já, já contou sim” “Ah... hum... teve um carnaval em Diamantina que” “Você já contou isto também”. Putz! E o tédio de não ter nada de novo para contar se instauraria entre os dois decretando o fim do relacionamento.

Três anos depois estão de casamento marcado. Somam ao currículo do casal duas viagens internacionais onde conheceram três países diferentes, além dos inúmeros roteiros nacionais, incluindo mergulhar juntos em Bonito, subir serras, tremer de frio no sul e morrer de calor em praias paradisíacas Brasil afora. Tudo um coladinho no outro. Contabiliza-se, ainda, três carnavais, réveillon, aniversários, natais. Os dois tem muita história na bagagem. Falta é tempo para contar tudo, sempre esquecem algum detalhe relembrado naquele próximo encontro com os amigos – amigos de um lado, amigos do outro.

Assunto não acaba quando se convive diariamente. Assunto acaba é quando fica muito tempo sem se ver. Assuntos são feitos de pequenos detalhes que não contamos para quem esteve por muito tempo distante – somos feitos da matéria destas pequenas bobeirinhas. Ninguém fala do rádio alto do vizinho, do chilique da sogra ou das imaturidades do irmão para quem está muito tempo longe. E são estes detalhes que nos compõe.

Pense na seguinte situação: você reencontra aquele amigo de infância com o qual compartilhou décadas de bons momentos, mas que se mudou para longe há seis anos e se falam, esporadicamente, naquelas listas de e-mails que não dizem nada. O que acontece? “Meu amigo querido, quanta saudade!” “Quanto tempo! Lembrei de você tantas vezes, senti muito a sua falta sabia?!” “É, eu também” “Mas aí, o que me conta de novo?” “Pois é, rapaz, casei, tive dois filhos” “Dois, cara?” “É, a mais velha está na escolinha até” “Como está sua família: sua mãe, seu pai, aquela sua irmã” “Você não soube? Ah, .....”. E assim o assunto prossegue durante uns 40 minutos, no máximo, contando as “coisas grandes” que aconteceram nos últimos cinco anos: quem morreu, quem casou, quem formou, quem trocou de emprego. Um conta, outro conta e, quarenta minutos depois, o assunto acaba.

Como assim assunto acaba? Não pode acabar! É o meu amigo de infância, que comigo fez tanta bagunça e compartilhou segredos e descobertas. O assunto acaba, inevitavelmente, acaba, fatalmente, acaba. Fica aquele constrangimento de mãos, sem saber onde colocar, o que mais perguntar. Não faz sentido contar aquilo tão íntimo que te aflige nas noites insones, do curso de alemão, das chatices da sua mulher, da beleza dos desenhos das nuvens. Não, não faz sentido algum, este “cara” nem o conhece mais. Como ele vai entender a pessoa que você se tornou se não compartilhou as pequenas e inevitáveis mudanças que se processaram diariamente? Vocês são dois desconhecidos com um passado em comum. Apenas isto.

É preciso estar muito junto para se ficar mais junto ainda. É preciso contar sempre e ouvir sempre, para não parar de contar nunca. O bom desta história é que tem assunto novo acontecendo a todo o momento e se um amigo antigo quiser ser um amigo novo, de novo, é só ficar bem juntinho e não parar de contar nem de ouvir, que rapidamente o assunto volta. Afinal, assunto não acaba, o que acaba é a intimidade, mas esta é outra história.
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Hoje, no Crônica do Dia. Imagem: The Maidservant. Do pintor holandês Johannes Vermeer.
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Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

Minas e minas e minas...




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Minas não é palavra montanhosa
É palavra abissal
Minas é dentro e fundo.
As montanhas escondem o que é Minas.
No alto mais celeste, subterrânea,
é galeria vertical varando o ferro para chegar ninguém sabe onde.
Ninguém sabe Minas.
A pedra
o buriti
a carranca
o nevoeiro
o raio selam a verdade primeira,
sepultada em eras geológicas de sonho.
Só mineiros sabem.
E não dizem nem a si mesmos o irrevelável segredo chamado Minas.
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[Carlos Drummond de Andrade ]

Minas pegou a porção maior do meu coração.
Fechou, selou e se esparramou inteira dentro de mim.
Minas é dor de partida.
Fumaça de olho ardendo.
Milho estourando na brasa.
Nevoeiro de dia esquisito.
Mosca zumbindo sobre os bezerros.
É sapo coaxando no brejo e cigarra gritando no terreiro.
É cachorro correndo no mato é gente feito formigueiro.
Ê Minas!
Doce café amargo.
Oratório de fé casamenteiro.
Árvores tão lindas de braços.
Frutas tão doces de boca inteira.
Puro aconchego de Minas, de minas...
Atolando no barro e na poeira: estradas de minas.
Um jeito de ter-sendo - tecendo por mãos bordadeiras.
De pedras desaguando cachoeiras.
Des-aguando aguaceiro do céu inteiro.
Coração festeiro no desenho de nuvens.
De dobras, recortes e fendas.
Minas de entranhas.
Minas de tantos longes e de aqui muito dentro.
É Minas!
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[estas são minhas]
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Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

A construção de uma imagem

'Censurados no Brasil'
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Estreou semana passada na Current TV, nos EUA, e no dia 27 de maio no Reino Unido o filme 'Censurados no Brasil' . O filme trata das relações entre governos e a mídia e as pressões sofridas pelos profissionais de mídia e jornalistas.

O filme explora as relações entre o Governo de Minas e a mídia no país, e como ele usa seu poderio economico para suprimir críticas e construir a imagem do Governador Aécio Neves, através de investimentos pesados em publicidade e demissão de jornalistas que escrevem críticas a seu respeito.

É um filme ágil de 8 minutos, com entrevistas e exemplos. Uma versão com legendas em portuguës do filme já apareceu no YouTube e pode ser visto em:

O governador mineiro Aécio Neves, neto de Tancredo Neves, têm investido milhões em propaganda para construção de sua imagem com objetivo de eleger-se presidente da república nas próximas eleições:

"Em Minas Gerias, o orçamento deve apresentar um crescimento de 35,7%, ou R$ 40,7 milhões contra R$ 30 milhões em 2008. Entretanto, nos últimos dois anos, Minas tem registrado gastos maiores do que os previstos inicialmente. Segundo a assessoria de imprensa do Estado, os valores iniciais não correspondem necessariamente ao investimento total na área, o que poderia explicar a mudança nos valores."

Ainda em 2005, o Folha de São Paulo publicou que: "O gasto em publicidade da gestão do governador Aécio Neves (PSDB) em Minas Gerais até outubro deste ano é 520% superior ao previsto no Orçamento do Estado aprovado pela Assembléia Legislativa. Ao contrário dos R$ 10 milhões previstos, o Executivo mineiro realizou despesas que somam R$ 61,8 milhões."

Isto tudo sem contar a obra megalomaníaca que está sendo construída em Belo Horizonte para abrigar o novo Centro Administrativo de Minas Gerais, orçado em 900 milhões de reais. Inúmeros prédios públicos serão abandonados no Centro de Belo Horizonte e as secretarias irão migrar para o novo Centro Administrativo.

"O Centro Administrativo é composto por cinco edificações criadas por Oscar Niemeyer que vão ocupar cerca de 200 mil metros quadrados em um terreno de 804 mil metros quadrados. Na área escolhida para abrigar a sede funcionava o antigo Hipódromo Serra Verde, às margens da MG-010, na região norte da capital. No local, funcionarão 17 secretarias e demais órgãos. Os investimentos serão da ordem de R$900 milhões."

Penso que Aécio Neves é um bom governador, mas não posso concordar com atitudes como estas que coibem a democracia e a liberdade de imprensa e gasta dinheiro público com auto-promoção.

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Em excelente pronunciamento, o jornalista Luiz Carlos Prates falou sobre os sentimentos de asco que nos assolam constantemente: a falta de vergonha, moralidade, ética, decência e caráter dos nossos representantes políticos. Aplaudo o jornalista! Agora resta-nos ter coragem para fazer o apregoado e o correto.

"Estas passagens, a origem destas passagens é para que o deputado, parlamentar possa ir e vir para de Brasília para suas bases. Esta é a origem e esta é a razão. Tudo que estiver fora disso é orgia com o dinheiro público e falta de vergonha na cara de quem usa de modo indevido estas passagens.Teve um safado em Brasília que chegou a dizer que família é sagrado, que família está acima de tudo e que por isso ele deu as passagens para que a família viajasse para a Europa, para a Europaa!! Quer dizer, neste momento, agora, empresários, lojistas, operários, trouxas, trouxas, estão pagando imposto de renda. Estão pagando imposto de renda para gente que não tem vergonha na cara mandar amigos "sirigaitear" em Miami, em Paris, em Roma, onde quer que seja. E não lhes vai acontecer nada porque este é um povo estúpido que não reage, porque se o povo fechasse o pulso e fosse para Brasília destituir os imorais nós teriamos hospitais em condições de atender a população pobre, teríamos colégio de qualidade para os carentes da sociedade brasileira, teríamos estradas com segurança, teríamos segurança pública, nós seríamos povo de primeiro mundo. NÓS PAGAMOS UM IMPOSTO QUE NINGUÉM MAIS PAGA SOBRE A TERRA!! E o que é que temos em retorno? Orgia de gente que não respeita o dinheiro público, de gente que não tem vergonha na cara, que pega o seu dinheiro e manda as "sirigaitas" para a Europa. Até quando isto vai acontecer? Até a hora em que o povo acorde, reaja e tire do poder quem não devia estar representando o povo! SAFADOS!"

Sábado, 25 de Abril de 2009

Crônica do Dia

Up!

Quando Davi nasceu, minha irmã levou Lívia para conhecê-lo ainda na maternidade. A mãe do Davi trouxe-o até o vidro que separava a sala de espera da parte interna do hospital e ali os primos se conheceram. Lívia, na sabedoria dos seus 2 anos, deve ter acreditado que se tratava de uma de suas bonecas: queria carregá-lo e cantar para ele. Na hora de ir embora ela não se conformava em deixar o pequeno no hospital
“minha Davi, pega a minha Davi e a tia Lulu, mamãe” ela gritava fazendo um escândalo. Hospital é lugar de injeções e muitas outras torturas, ela deve ter pensado, pois já havia experimentado muitas delas, como deixar ali a tia Lulu e o seu bebezinho? Desejo não satisfeito, Lívia teve que se contentar em voltar para casa sem a “sua Davi”.

Crescemos e saímos vida afora sem entender muitas coisas. Vamos seguindo no piloto automático que alguém – nunca se sabe exatamente quem – programou. Sigo sem entender como homens e mulheres, dezenas deles, se enfiam numa academia e carregam pesos repetidamente para moldar o corpo que receberam já pronto, totalmente de graça. Horas e horas perdidas para ter de volta o peso e a rigidez dos 20 anos. Que academia me devolve a inocência desta mesma fase? O avaliador físico sabe de gorduras e massas – boas e más, mas nada me diz sobre os deliciosos amores platônicos que deixei, todos eles, antes dos meus 25 anos.

- Seu peso está ideal para a altura e não apresenta riscos à saúde, mas esteticamente precisamos remodelar alguns quilinhos. Nada que cinco dias por semana de atividade física não resolva.

Quais aparelhos de ginástica restabelecerão ao mesmo tempo a estética dos sonhos dos meus 20 anos? Quero o fogo, a emoção e as dores do primeiro amor e do segundo e do terceiro... Será que os reconquistarei naquela sala onde as pessoas pulam freneticamente em cima de um jump? Onde se recupera a naturalidade das amizades da infância sem julgamentos, sem medos, sem preconceitos?

Ouço e vou fixando as modalidades, todas com nomes em inglês, tentando decifrar qual delas me devolverá o que perdi:
jump, pump, step, spinning, gap, jogging, fitt, tem até um tal de “up local”. Ei, eu quero dar um “up” na minha memória, será possível? Espero apagar as cicatrizes das experiências geradas pelos erros e recuperar a ingenuidade que tinha quando estava na sua idade, senhor avaliador físico. Assim, vou ter de volta a coragem que preciso para me jogar por inteira e não colocar apenas os pés no raso e no transparente, como faço agora.

Ultimamente, com a iminência da chega dos 30, foi que me dei conta que em alguma página do passado ficou perdida a minha infância, sem que eu soubesse onde nem quando. Certamente devo ter feito, também, escândalos a cada vez que tiravam
“minha Davi” e foi assim que aprendi que para muitas coisas incompreensíveis não há solução. É preciso calar e seguir adiante e se for em silêncio, sem reclamar, tanto melhor para as pessoas ao redor. Às vezes elas até nos presenteiam com afagos e cafunés se seguimos incompreendidos, mas cantando. E numa destas em que não contestei pluft! me roubaram a infância e o prazer de saborear uma bala de jujuba ou me lambuzar inteira com uma manga linhenta bem madura, daquelas em que o caldo escorre pelos cotovelos manchando toda a roupa.

Já que a cartilha não me deixa opção, talvez eu escolha uma modalidade de atividade física com idioma nacional, em que reaprenda a pular bem alto para conseguir ir buscar, eu mesma, aquela fruta mais madura, bicada de passarinho, que fica nas copas das mangueiras.
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Foto: Lívia com alguns meses se deliciando com o seu primeiro chocolate.
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Texto publicado originalmente no Crônica do Dia.
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Terça-feira, 21 de Abril de 2009

A vidente virgem

Imagem: Jana Magalhães

- Professora, você sabia que eu sou virgem?

- Como assim, “você é virgem”?

- Ah, professora, eu vejo o futuro. Eu sei o que vai acontecer. Já tive até visões.

- Visões, Carolina? Onde você está aprendendo estas coisas, menina? Bom, mas você quer dizer vidente e não virgem.

- Mas não é tudo a mesma coisa?

- Não, minha querida, não é tudo a mesma coisa. Virgem é uma coisa e vidente é o que você está dizendo que é.

- Então eu sou vidente – disse sorrindo.

- Sim, se é o que está dizendo.

- Professora, o que é ser virgem?

- .....

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Gabinete de Leitura de Maruim

A palavra M A R U I M tem a sonoridade gostosa de um farfalhar de asas, dito bem lentamente: M A R U I M.

O nome deriva do tupi:
mberu'wi (de mbe'ru 'mosca' + '(w)i 'pequeno'). Maruim é uma mosca, um mosquito, conhecido na minha região como “borrachudo”. A picada dele dói de arder o lugar durante um bom tempo, por isso é também chamado de “mosquito-pólvora”. A picada e a irritação causada pelos maldosos voadores nada lembram o doce nome de M A R U I M.

Há 30 quilômetros de Aracajú, capital de Sergipe, fica a cidade que tem o mesmo nome do inseto. Nos tempos áureos do século XIX, Maruim atraiu diversos grupos de investidores europeus, por conta dos engenhos de açúcar e da produção de algodão, produzidos ali e comercializados para as cidades circunvizinhas e exportados para outros estados e para além mar. Colônias européias formaram-se na região de Maruim: portugueses, alemães, ingleses e suíços. Há registro de que Inglaterra, Alemanha e França mantinham comércio regular com Maruim.

Herança dos europeus que ali estiveram nos tempos de prosperidade restou um Gabinete de Leitura, fundado em 19 de agosto de 1877. O ano entalhado na madeira de um dos belos armários que compõe o acervo é 1879.

Foi com a expectativa alegre de encontrar o Gabinete de Leitura de Maruim, com obras do século XIX e com a sonoridade do nome despertando os mais ternos presságios, que me dirigi àquela cidade no dia 11 de fevereiro de 2009, numa bela manhã azul. O ônibus me deixou na Praça central do município, onde está edificada a imponente Matriz construída entre 1848-1862 (
pelo Barão de Maroim João Gomes de Melo). Belos casarões circundam a praça, entre eles o do Gabinete de Leitura, pintado num tom verde claro de não muito bom gosto, para combinar com o prédio da Prefeitura municipal que fica na esquina lateral – também pintado de verde, em outra tonalidade.

Minha surpresa começou logo na entrada, uma fila de pessoas se acotovelavam à frente da edificação. Percebi imediatamente que tinha algo estranho, imagine uma fila para entrar num Gabinete de Leitura, algo estaria errado. E estava! A fila era para entrar no Banco da Caixa Econômica Federal, na agência dentro do prédio. O Gabinete de Leitura, percebi logo, estava apertado num cômodo comprido, do lado esquerdo da edificação. As prateleiras apertadas no espaço reduzido, com livros amontoados e imundos! Teias de aranha, traça, mofo, muita poeira e sujeira estavam sobre e entre os livros mal acondicionados. Além do estado lastimável do acervo, não há qualquer catálogo descritivo e de identificação do mesmo.

Vi logo que o acervo propriamente do Gabinete de Leitura ficava armazenado dentro de aproximadamente oito belos armários de madeira e se compunha de obras preciosas, com alguns volumes em francês. Disseram-me que neste acervo está suspensa consulta e manuseio. Pelo menos isto, pensei já começando a ficar irritada com a situação calamitosa daquele acervo.

Enquanto passeava entre as prateleiras fotografando o péssimo estado de acondicionamento e conservação do acervo e aguardava a chegada da diretora do Gabinete de Leitura para uma entrevista, ouvia uma música irritantemente alta, intercalada com propagandas literalmente gritadas. Pensei se tratar daqueles odiosos carros de som, que fazem propagandas nas cidades do interior e dos quais já tinha visto vários em Sergipe. Entretanto, haviam passados uns 10 minutos e as músicas de péssima qualidade juntamente com as propagandas de “ração para não sei quê”, “loja funerária de não sei onde” não cessavam, resolvi perguntar à educada e constrangida funcionária do que se tratava. Ela me informou que era uma rádio local, que tinha uma caixa de som na praça em frente ao Gabinete de Leitura.

- Como assim??? Eu perguntei completamente estarrecida. Você está querendo dizer que esta música infernal, neste volume altíssimo, toca o dia INTEIRINHO? Perguntei não conseguindo esconder minha irritação que crescia a cada minuto.

Ela respondeu que sim e que algumas pessoas da comunidade tinham tentando desativar a rádio ou, pelo menos, tirar aquele alto falante da praça, mas não tinham conseguido.

Como teria mesmo que aguardar a chegada da diretora, fui para a praça e vi e ouvi o tal alto falante. Inacreditável! Fotografei, obviamente, porque contando ninguém acreditaria. Lá estavam, não um, mas dois alto falantes no meio da praça bem em frente ao Gabinete de Leitura e à Igreja Matriz.

Retornei ao Gabinete para aguardar a diretora e peguei um livro sobre a história local para ler enquanto esperava. Logicamente não consegui me concentrar em nenhuma palavra, a música era irritantemente muito alta! Neste meio tempo, a diretora chegou e foi para os fundos, numa mesa colocada provisoriamente ali, já que o Banco estava ocupando grande parte da edificação. Antes de ser anunciada pela educada funcionária que havia me recebido, outra pessoa que também aguardava se adiantou e assentou-se à frente da diretora.

De onde eu estava, na comprida sala do Gabinete, era impossível não ouvir a conversa, pois estava de frente para onde as duas se encontravam. E foi assim que presenciei uma discussão entre duas funcionárias do poder público local por conta de cargo. A conversa foi se desenrolando e as duas, notoriamente exaltadas, começaram a gritar ofensas e a dizer uma para a outra o que tinham feito ou deixado de fazer no último ano.

Parecia um pesadelo e um sacrilégio aquilo tudo, numa manhã tão bonita como aquela, dentro de um Gabinete de Leitura do século XIX, em meio a Balzac, Padre Vieira, Zola e outros. Nada ali lembrava um gabinete de leitura, impossível ao pesquisador ou leitor conseguir concentração para ler algo no local.

Aguardei uns 20 minutos e como a discussão não cessava, minha paciência se esgotou completamente. Olhei uma última vez para os livros e para o estado calamitoso daquele acervo, caminhei até a praça e constatei mais uma vez embasbacada a existência do alto falante detestável, tomei o ônibus e retornei para Aracajú com uma sensação estranha, um gosto ruim na boca, um silêncio interno de doer.

Maruim, infelizmente, não é um caso isolado. É um exemplo a ilustrar o descaso do poder público em relação à cultura do seu povo. Aquela manhã em Maruim me doeu mais do que a picada do mosquito do mesmo nome. A cada vez que me lembro do Gabinete de Leitura de Maruim sinto uma revolta sem tamanho e uma incompetência diante de situações como esta que a única alternativa que vejo é não me calar e escrever para que alguma voz distante, que seja mais forte que a minha, possa fazer algo para recuperar aquele acervo antes que ele se esfarele de vez – como a consciência dos políticos brasileiros – e faça calar aquele alto falante estúpido antes que a música entranhe e corrompa a alma dos maruinenses.






Maruim / SE. Fotos minhas. 11.02.2009.

Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

O Senhor do Labirinto

De que cor você vê a minha aura?
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- E o senhor, o senhor é de onde? Onde o senhor nasceu?
- Nasci não. Um dia simplesmente apareci.
- Apareceu?
- É. Foi assim que sucedeu.
- Mas isso não é possível, seu Bispo. Todo mundo tem um lugar de nascimento.
- Mas eu não. Eu só apareci."
[Trecho do roteiro do filme "O senhor do labirinto"]

Nossa mente é um sótão, um porão, um universo inteiro do lado de dentro. Tecida com fios invisíveis há nela labirintos insondáveis pela mais alta tecnologia humana. Muitos destes labirintos são desconhecidos por nós mesmos. Não controlamos nossa mente, no máximo, dirigimos voluntariamente nossos pensamentos. Quem age quando respondemos rapidamente por reflexo? Instinto? Sabemos apenas que é uma força imensa da qual não podemos explicar. E quem dirige o nosso pensamento para aquela situação que fazemos um esforço tremendo para esquecer?

Há mentes consideradas fora dos padrões normais, a Ciência enquadra-as de acordo com modelos de comportamento, classificando-as com nomes, um deles é a esquizofrenia. Para um problema na coluna sabemos o que fazer. Há médicos e remédios específicos. A medicina ataca diretamente o mal e tudo se resolve – ou se aprende a conviver com ele. Nos males da mente que não se enquadra aos padrões de “normalidade” complica-se o diagnóstico, a convivência social e familiar e, principalmente, a vida do paciente. Estas pessoas vivem num universo interno que não é, absolutamente, o mesmo do externo. O mundo deles é meio “mágico”, ouvem e sentem o que está além da compreensão racional. E é tão real e palpável quando este que vemos todos os dias ao abrir os olhos e sair para o trânsito.

Conheci Arthur Bispo do Rosário muito depois de sua morte. Sua obra sobreviveu além dos seus restos mortais. O corpo humano se foi, a imaginação artística “ficou encantada”. Nascido em 1909, na cidade de Japaratuba, em Sergipe, numa família de ex-escravos, conviveu com o antagonismo: miséria e esperança de um futuro promissor. Em 1925, deixou Japaratuba levado por seus pais e se mudou para Aracaju para estudar na Escola da Marinha. Percorreu os mares da costa brasileira como sinaleiro de embarcações de guerra. No Rio de Janeiro, teve um surto psicótico. Próximo ao Natal, enquanto armava um presépio na casa de uma família abastada, vê sete anjos vindos do céu, entre nuvens, conduzindo Cristo para uma missão na Terra. Após este episódio, andou atordoado vários dias pela cidade tentando ser reconhecido como Jesus (nos países em que predomina a religião católica ou cristã como um todo, os surtos esquizofrênicos quase sempre estão relacionados a Deus, Jesus Cristo e à virgem Maria). É internado num hospício, onde viveu seus próximos 50 anos de vida.

Na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, Arthur Bispo do Rosário dedicou seus dias para construir a obra prenunciada pelos anjos naquela primeira alucinação: miniaturas de todas as coisas boas do mundo para mostrar a Deus quando fizesse sua passagem.

Com objetos abandonados e materiais catados no lixo, ele constrói um universo em miniatura, um mundo sem dor, sem doença, sem miséria - igual ao existente do seu lado de dentro. Pelas mãos do artista plástico sergipano, palavras ternas e de otimismo foram costuradas, para ir junto com ele para o céu quando morresse. “Lápis para escrever em papéis branco ou outro que as letras fique bem visível”, foi grafado por ele com linha.

A palavra era o seu objeto. Através dela ele expressava o que sentia, o que ouvia: o imaginário artístico de um esquizofrênico que vê o mundo de outro ângulo. Vê de dentro para fora. Por alguns, ele foi considerado um contador de histórias. Sua narrativa se fazia sentir por meio de signos e emblemas, transmutados em obras de arte.

Em sua biografia, escrita por Frederico Morais, Arthur Bispo do Rosário foi descrito como :
... preto, solteiro, de naturalidade desconhecida, sem parentes, sem profissão, alfabetizado, com antecedentes policiais. Foi internado no dia 25 de janeiro de 1939. Diagnóstico: esquizofrenia paranóide. Na ficha de Bispo estão anotadas mais duas entradas na Colônia Juliano Moreira – RJ, em 23/08/1944 e 14/04/1948...

A obra deixada pelo sergipano foi classificada da seguinte forma pelo mesmo autor: 1- o texto: nos estandartes bordados; 2- as roupas: o Manto da Apresentação e os fardões; 3- os objetos: ready-made mumificados (enrolados por linhas muitas vezes conseguidas ao desfiar seu uniforme hospitalar) e construídos (barcos, miniaturas); 4- as assemblagens (ou vitrines, como dizia Bispo).

“De que cor você vê a minha aura?” Era a pergunta que o visitante tinha que responder antes de entrar no quarto-ateliê do artista, no hospício onde viveu por 50 anos, até sua morte em 1989.


Foto do artista vestido com o seu 'Manto da Apresentação'

A história de Arthur Bispo do Rosário virou filme “O Senhor do Labirinto”, produzido por Elisa Tolomelli, baseado no livro "Arthur Bispo do Rosário - O Senhor do Labirinto", da jornalista Luciana Hidalgo, ganhador do Prêmio Jabuti de 1996. Réplicas de sua obra de arte foram usadas como cenografia na produção do filme e estiveram expostas pelo BANESE em Sergipe. As fotografias que ilustram este post foram tiradas por mim numa destas exposições - excluindo-se as duas fotos do artista.

Fontes:

BANESE, Fabiana Mortosa Faria, Fotolog e visita à exposição das réplicas da obra do artista, organizada pelo Banese em Aracajú em fevereiro de 2009. Fotos minhas da exposição.

Outro filme que trata da esquizofrenia é Estamira, documentário produzido por Marcos Prado. Difícil falar sobre o filme Estamira... no site oficial há trechos, comentários, imagens e fotografias sobre ele.

Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Haikai - do Baú

Imagem: Moidsch

Minha boca
Seu beijo
uma questão de geografia

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Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Nós e tramas

Ao longo da vida, inevitavelmente, assumimos papéis e encarnamos personagens. Nos relacionamentos não é diferente. Em quase dois anos de “união estável”, os papéis foram se definindo sem que houvesse uma palavra, não houve um acordo de que ele faria o café todos os dias e eu cuidaria das plantas. Aconteceu, simplesmente. Hoje, temos personagens bem definidos na nossa história de amor.
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Eu sou a chata, ele o compreensivo. Tenho crises de ciúme, de TPM e fico muito anti-social às vezes, mas ele agüenta tudo resolvendo as coisas no diálogo. Ele é o hipocondríaco, eu protelo ao máximo o uso de automedicação. Ele cozinha, eu lavo. Ele é esquecido e costuma perder as coisas, enquanto eu vou atrás entregando a carteira, o celular, as chaves. Ele é o mais novo dos 3 irmãos, eu sou a mais velha de 4 mulheres. Ele é desatento, demora um século para captar as coisas, enquanto eu observo tudo e vivo de antena ligada. Já eu sou totalmente desastrada, saio me batendo pelas quinas das paredes e dos móveis, ele é gentil e cavalheiro ao extremo. Eu sou organizada e ele o bagunceiro, meu Deus, como ele é bagunceiro!
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Ele é o cozinheiro, mas sou eu que lembro quando acabou o sazon e o filtro de papel para o café. Ele sempre sabe tudo, desde os trajetos dos ônibus, passando por todos os infindáveis escândalos da política até o figurino dos personagens no filme Watchmen eu, bem, eu sei ouvir pacientemente, apaixonadamente todas as suas histórias. Eu sempre procuro os pés dele na cama de noite, enquanto ele dormiu faz tempo. Eu gosto de filmes franceses, ele já assistiu a todos os clássicos do cinema e lembra das falas de grande parte dos personagens. Eu às vezes fico moleque, pulo no pescoço dele e rio desmedidamente, ele me acompanha e a gente ri feito criança. Ele é mais palhaço do que eu. Sou eu que sempre fecho a casa de noite e confiro as portas 10 vezes, é ele quem levanta cedo, antes do sol nascer, e me acorda para dar um beijo de despedida todos os dias antes de ir para o trabalho. Nas viagens, eu sou o “navegador”, escolho o trajeto, o melhor lugar para ir, onde ficar, ele é o meu companheiro mais fiel e delicado. Eu conheço todo mundo, mas é ele quem freqüenta os grupos de amigos da infância e da faculdade. Eu sou pragmática e objetiva, ele é prolixo e vive em conflitos internos. Ele me ensinou a gostar de Bach e de Pink Floyd, eu não consegui fazê-lo gostar de Los Hermanos e Sex and the city. A gente empata no tanto que gosta de ler e ficamos discutindo sobre este ou aquele personagem. Muitas vezes lemos um para o outro. Ele é de beijo, eu sou de abraço. Eu sou sãopaulina feliz, ele atleticano frustrado. Ele sabe se estou brava ou eufórica só de olhar no meu rosto antes de qualquer palavra, eu pressinto de longe se ele está feliz ou chateado. Eu sou aventureira, deixo emprego sem pensar e sem ter outro em vista se não está agradando e sempre me arranjo, ele é canceriano e não consegue largar o dele mesmo tendo planejado tudo meticulosamente há anos. Ele pensa em ter filhos, eu não sei se quero ir morar na Europa ou ser mãe. Eu nunca imaginei que alguém pudesse saber tanto de mim, conhecer todos os meus suspiros, as minhas angústias geminianas, mas ele sabe e eu acho que ele nunca pensou que teria alguém com quem pudesse compartilhar e contar em todos os momentos.
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A gente fala junto e adivinha o pensamento um do outro. Estes dias, enquanto caminhávamos para ir ao mercado, ele disse simplesmente “estou na metade”, e eu completei “sério? Nossa, você está lendo muito rápido. Grande Sertão é um livro tão difícil” e começamos a rir quando nos demos conta que ele não tinha dito o que era aquela “metade”.

Às vezes a nossa trama assume ares de comédia, noutras, é dramática ao extremo. E assim, dia após dia, reinventamos o nosso script.

Inspirado no texto "A gente nunca combinou", da Ana Coutinho

Imagem: Pôr do sol no Porto da Barra - Salvador. Foto minha, março 2009.