Minha bússola pifou, ando um tanto quanto cansada de viver num motorhome (tá bom, fui eu quem o comprou, mobiliou e abasteço o veículo periodicamente, então, não posso reclamar). Foi aí que lembrei deste texto antigo, bem providencial. Enquanto organizava a agenda dos próximos meses, ontem, pensei: "tenho que deixar espaço para os imprevistos". Não havia espaço para eles, larguei a idéia, talvez não surgissem. Antes do final do dia apareceu mais um... bora botar energia no motor porque o GPS está maluco faz tempo (e eu também).

Claude Monet - la promenade sur la falaise
A bonequinha de Caruaru
Isto foi lá pelos idos do final dos anos 1980 e início dos 1990, quando estava entre a infância e pré-adolescência e assistia aos filmes americanóides da sessão da tarde. Neste tempo eu tinha um sonho maluco de morar num trailler-casa. Nos filmes passavam aqueles ônibus-trailler ou casas móveis em que as famílias, todas felizes, viajavam de um lugar a outro sem se fixar em local algum. Eu achava uma maravilha e pensava que quando crescesse eu teria uma casa-móvel daquele jeito, viveria assim e teria um milhão de amigos em todo o canto.
Naqueles tempos de Santa Maria de Itabira nem se cogitava em internet, quiçá notebook ou tipos de trabalhos virtuais que você poderia estar em qualquer lugar a qualquer tempo. Mesmo assim eu ambicionava um trabalho que me permitisse deslocar de um local a outro, como fotógrafa ou correspondente de algum jornal ou revista. Veio a década de 1990 e com ela a internet e, aos poucos, as barreiras territoriais caíram todas. Cresci e não comprei um trailler-casa (ainda), mas o meu trabalho atual me permite estar em qualquer lugar, a qualquer tempo e me corresponder com a empresa constantemente. Nos últimos anos, como descrevi em diversos posts, rodei o Brasil com trabalhos de pesquisas na área de Patrimônio Histórico. Antes disto, mudei de cidade várias vezes.
Por vias diferentes da imaginada, não é que meu sonho de pré-adolescência deu certo? Pois bem, sonho satisfeito vão aparecendo as conseqüências da realização dele. Aquelas coisas que só sabemos quando acontece de fato e a gente lembra daquele ditado antigo: “cuidado com o que deseja, pode se realizar” (ou algo do tipo que não recordo agora). Ter uma vida errante, viajar, correr mundo é muito bom! Mas tem o seu preço e eu tenho lembrado de um pequeno texto do Padre Roque Schneider que diz:
"Sempre pensei que optar fosse apenas escolher. Escolher entre dois objetos, duas pessoas, entre duas coisas de igual valor ou semelhantes. Mas a vida foi ensinando... Optar é antes de tudo renunciar, e quantas vezes essa renúncia fica doendo, pedindo, arrancando lágrimas, plantando saudades... Viver é optar. Optar sempre, renunciar a cada momento...".
Quando eu ouço alguém dizer “você sumiu”, eu fico feliz, porque ainda estamos no estágio inicial. Esta frase demonstra apenas que a pessoa se lembrou de mim quando me viu e, então, não percebeu completamente minha falta e que vai voltar a me procurar dia destes. Ultimamente tenho ouvido uma outra frase, que é o estágio mais avançado desta primeira: “estou com saudade”. Esta já é um caminho mais próximo do abismo. Dependendo do grau de intimidade de quem disse, pode ser que eu ouça esta frase mais uma ou duas vezes. Não mais. Depois disto é o abandono absoluto.
Este é o preço que se paga por uma vida errante. Os amigos se distanciam. A família vai vivendo sem você e se acostuma tanto de você não ir a casamentos, formaturas, aniversários que simplesmente deixam de te convidar para os eventos, já que você faltou a TODOS dos últimos anos. Invariavelmente, eu fico sabendo de festas de parentes próximos ou amigos pelas fotografias do Orkut... e me entristeço, mas sei que é o preço. O preço da escolha.
Dia destes quis ligar para uma amiga. Queria contar aquelas coisas femininas, de frio na barriga, de “serás” e “porquês” e eu não tinha para quem ligar. Peguei o celular, cacei um número, outro, outro e não tive coragem. Como ligar para alguém quatro, cinco meses depois da última vez de ter falado com ela para desmarcar um compromisso porque você não tinha tempo ou estava viajando!? Ou para dizer que não ia poder ir ao seu aniversário?
Um dos casos mais emblemáticos deste fato está representado em uma bonequinha que tenho na minha estante, em Belo Horizonte. No final de 2009, antes do Natal, estive em Caruaru, no Alto do Moura, na Casa onde viveu Mestre Vitalino e comprei ali uma boneca linda, de barro, toda colorida, feita pelas netas do Mestre Vitalino. Comprei esta bonequinha para uma amiga que gosto muito e que é apaixonada por arte (e livros). Voltei de Pernambuco pouco antes do Natal e fiquei apenas duas semanas em casa antes de retornar ao Estado novamente. Nestas duas semanas que estive em BH (Natal e Ano Novo) tive que escrever dois Relatórios antes da viagem de retorno e me dividir entre casa da mãe e da sogra, lavar as roupas da viagem, colocar a vida em ordem. Ou seja, não consegui fazer muita coisa.
Em algum momento destas duas semanas, esta amiga me escreveu uma mensagem carinhosa de Natal. Mandou uma música igualmente linda. Fiquei tão feliz! E pensei: “quando responder vou contar a ela que lembrei dela em Caruaru, na Casa do Mestre Vitalino, e ela vai ficar feliz”. Aliás, ela nem sabia que eu tinha estado em Pernambuco. Os dias foram passando corridos e atarefados, rapidamente chegou a data do meu retorno a Pernambuco. De lá eu lembrava sempre dela, do email de Feliz Natal não respondido e cada vez que o tempo passava, mais eu ficava sem graça de responder. Como desejar Feliz Natal em janeiro? Em fevereiro? Mas eu pensava que quando voltasse para BH eu iria encontrá-la, entregar a boneca, dar um abraço e me desculpar pelo silêncio de meses (ano?). Voltei para BH antes do Carnaval e a vida me engoliu até eu mudar para Campinas pouco depois.
A bonequinha dela está lá empoeirando na minha estante. Ela nunca mais me escreveu, não sei por onde anda, não sei quais são seus novos planos, nem o que pensa da vida. A mensagem de Natal nunca foi respondida. Junto com a mensagem dela tem um monte de outras não respondidas e eu já nem ouço mais tanto “estou com saudade”, assim como não tenho mais para quem ligar quando acontece aquelas dúvidas intermináveis de toda mulher.
Naqueles filmes americanos ninguém contava pra gente que quem não tem pouso fixo, não tem laços, que os amigos que a gente encontra na estrada (e são muitos) ficam na estrada. Que para estes amigos eventuais a gente não conta o que faz o nosso coração bater mais forte. Que quando chegamos num quarto novo, o travesseiro não tem cheiro e é tudo tão impessoal que a gente começa a ficar superficial como as paredes brancas que não sabem nada de nós. A bonequinha de Caruaru é o meu souvenir da saudade.















