terça-feira, 22 de maio de 2012

Requentando inquietação antiga

Minha bússola pifou, ando um tanto quanto cansada de viver num motorhome (tá bom, fui eu quem o comprou, mobiliou e abasteço o veículo periodicamente, então, não posso reclamar). Foi aí que lembrei deste texto antigo, bem providencial. Enquanto organizava a agenda dos próximos meses, ontem, pensei: "tenho que deixar espaço para os imprevistos". Não havia espaço para eles, larguei a idéia, talvez não surgissem. Antes do final do dia apareceu mais um...  bora botar energia no motor porque o GPS está maluco faz tempo (e eu também).











Claude Monet - la promenade sur la falaise

A bonequinha de Caruaru

Isto foi lá pelos idos do final dos anos 1980 e início dos 1990, quando estava entre a infância e pré-adolescência e assistia aos filmes americanóides da sessão da tarde. Neste tempo eu tinha um sonho maluco de morar num trailler-casa. Nos filmes passavam aqueles ônibus-trailler ou casas móveis em que as famílias, todas felizes, viajavam de um lugar a outro sem se fixar em local algum. Eu achava uma maravilha e pensava que quando crescesse eu teria uma casa-móvel daquele jeito, viveria assim e teria um milhão de amigos em todo o canto.

Naqueles tempos de Santa Maria de Itabira nem se cogitava em internet, quiçá notebook ou tipos de trabalhos virtuais que você poderia estar em qualquer lugar a qualquer tempo. Mesmo assim eu ambicionava um trabalho que me permitisse deslocar de um local a outro, como fotógrafa ou correspondente de algum jornal ou revista. Veio a década de 1990 e com ela a internet e, aos poucos, as barreiras territoriais caíram todas. Cresci e não comprei um trailler-casa (ainda), mas o meu trabalho atual me permite estar em qualquer lugar, a qualquer tempo e me corresponder com a empresa constantemente. Nos últimos anos, como descrevi em diversos posts, rodei o Brasil com trabalhos de pesquisas na área de Patrimônio Histórico. Antes disto, mudei de cidade várias vezes.

Por vias diferentes da imaginada, não é que meu sonho de pré-adolescência deu certo? Pois bem, sonho satisfeito vão aparecendo as conseqüências da realização dele. Aquelas coisas que só sabemos quando acontece de fato e a gente lembra daquele ditado antigo: “cuidado com o que deseja, pode se realizar” (ou algo do tipo que não recordo agora). Ter uma vida errante, viajar, correr mundo é muito bom! Mas tem o seu preço e eu tenho lembrado de um pequeno texto do Padre Roque Schneider que diz:

"Sempre pensei que optar fosse apenas escolher. Escolher entre dois objetos, duas pessoas, entre duas coisas de igual valor ou semelhantes. Mas a vida foi ensinando... Optar é antes de tudo renunciar, e quantas vezes essa renúncia fica doendo, pedindo, arrancando lágrimas, plantando saudades... Viver é optar. Optar sempre, renunciar a cada momento...".

Quando eu ouço alguém dizer “você sumiu”, eu fico feliz, porque ainda estamos no estágio inicial. Esta frase demonstra apenas que a pessoa se lembrou de mim quando me viu e, então, não percebeu completamente minha falta e que vai voltar a me procurar dia destes. Ultimamente tenho ouvido uma outra frase, que é o estágio mais avançado desta primeira: “estou com saudade”. Esta já é um caminho mais próximo do abismo. Dependendo do grau de intimidade de quem disse, pode ser que eu ouça esta frase mais uma ou duas vezes. Não mais. Depois disto é o abandono absoluto.

Este é o preço que se paga por uma vida errante. Os amigos se distanciam. A família vai vivendo sem você e se acostuma tanto de você não ir a casamentos, formaturas, aniversários que simplesmente deixam de te convidar para os eventos, já que você faltou a TODOS dos últimos anos. Invariavelmente, eu fico sabendo de festas de parentes próximos ou amigos pelas fotografias do Orkut... e me entristeço, mas sei que é o preço. O preço da escolha.

Dia destes quis ligar para uma amiga. Queria contar aquelas coisas femininas, de frio na barriga, de “serás” e “porquês” e eu não tinha para quem ligar. Peguei o celular, cacei um número, outro, outro e não tive coragem. Como ligar para alguém quatro, cinco meses depois da última vez de ter falado com ela para desmarcar um compromisso porque você não tinha tempo ou estava viajando!? Ou para dizer que não ia poder ir ao seu aniversário?

Um dos casos mais emblemáticos deste fato está representado em uma bonequinha que tenho na minha estante, em Belo Horizonte. No final de 2009, antes do Natal, estive em Caruaru, no Alto do Moura, na Casa onde viveu Mestre Vitalino e comprei ali uma boneca linda, de barro, toda colorida, feita pelas netas do Mestre Vitalino. Comprei esta bonequinha para uma amiga que gosto muito e que é apaixonada por arte (e livros). Voltei de Pernambuco pouco antes do Natal e fiquei apenas duas semanas em casa antes de retornar ao Estado novamente. Nestas duas semanas que estive em BH (Natal e Ano Novo) tive que escrever dois Relatórios antes da viagem de retorno e me dividir entre casa da mãe e da sogra, lavar as roupas da viagem, colocar a vida em ordem. Ou seja, não consegui fazer muita coisa.

Em algum momento destas duas semanas, esta amiga me escreveu uma mensagem carinhosa de Natal. Mandou uma música igualmente linda. Fiquei tão feliz! E pensei: “quando responder vou contar a ela que lembrei dela em Caruaru, na Casa do Mestre Vitalino, e ela vai ficar feliz”. Aliás, ela nem sabia que eu tinha estado em Pernambuco. Os dias foram passando corridos e atarefados, rapidamente chegou a data do meu retorno a Pernambuco. De lá eu lembrava sempre dela, do email de Feliz Natal não respondido e cada vez que o tempo passava, mais eu ficava sem graça de responder. Como desejar Feliz Natal em janeiro? Em fevereiro? Mas eu pensava que quando voltasse para BH eu iria encontrá-la, entregar a boneca, dar um abraço e me desculpar pelo silêncio de meses (ano?). Voltei para BH antes do Carnaval e a vida me engoliu até eu mudar para Campinas pouco depois.

A bonequinha dela está lá empoeirando na minha estante. Ela nunca mais me escreveu, não sei por onde anda, não sei quais são seus novos planos, nem o que pensa da vida. A mensagem de Natal nunca foi respondida. Junto com a mensagem dela tem um monte de outras não respondidas e eu já nem ouço mais tanto “estou com saudade”, assim como não tenho mais para quem ligar quando acontece aquelas dúvidas intermináveis de toda mulher.

Naqueles filmes americanos ninguém contava pra gente que quem não tem pouso fixo, não tem laços, que os amigos que a gente encontra na estrada (e são muitos) ficam na estrada. Que para estes amigos eventuais a gente não conta o que faz o nosso coração bater mais forte. Que quando chegamos num quarto novo, o travesseiro não tem cheiro e é tudo tão impessoal que a gente começa a ficar superficial como as paredes brancas que não sabem nada de nós. A bonequinha de Caruaru é o meu souvenir da saudade.

domingo, 22 de abril de 2012

Ítacas

ÍTACA
Konstantinos Kaváfis 

Se partires um dia rumo a Ítaca
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem os Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não o levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda espécie,
quando houver, de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha, velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso, não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

There's something inside you

É raro acontecer, às vezes uma vez a cada década.
Mas o cinema americano, em casos pontuais, consegue surpreender.

Drive, assim como My blueberry nights, Pulp Fiction, Onde os fracos não tem vez, La Piel que Habito e poucos outros, é um filme diferente pela proposta cinematográfica.  Cor, música, tipo de filmagem, roteiro original fazem dele um daqueles filmes que a gente não esquece. 


Vale ver: http://www.youtube.com/watch?v=x3k98H9MmUg (não consigo parar de ouvir esta música).
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segunda-feira, 26 de março de 2012

ausenc'ias - Ave, Memória!






































Imagens que contam histórias de ausências 

Durante a ditadura argentina (1976-1983) cerca de 30.000 pessoas desapareceram. Para refletir sobre a perda das famílias, o fotógrafo argentino Gustavo Germano lançou, em 2008, a mostra Ausências. A mostra traz imagens, de um lado, de cerca de 30 anos atrás, com as vítimas, familiares e amigos e, ao lado desta, uma imagem recente, no mesmo local da imagem anterior, sem a vítima. Germano nasceu em Entre Rios, na Argentina e teve um irmão desaparecido durante a Ditadura Militar argentina. A terceira imagem, de cima para baixo, mostra o próprio fotógrafo e seus irmãos. Na imagem recente, a falta de um deles. Radicado em Barcelona, o fotógrafo voltou 30 anos depois à sua cidade natal e foi lá que registrou a ausência dos muitos argentinos anônimos e de seus amigos e familiares. 

Ausencias traz uma série fotográfica com reflexão acerca do passar dos anos, principalmente para aqueles que ficaram esperando o retorno dos seus entes queridos. 

Tive contato com esta pesquisa do fotógrafo Gustavo Germano no 5º Seminário Internacional em Memória e Patrimônio, que aconteceu em Pelotas - RS, em outubro de 2011. Foi a primeira vez que vi uma platéia se emocionar durante uma apresentação em Congresso. Na apresentação, o fotógrafo contou as histórias de vida de cada família que teve seus desaparecidos registrados em imagens e o que cada um estava fazendo quando desapareceu. 

Vídeos acompanharam a exposição mostrando os bastidores da recriação de cada imagem. De posse de uma fotografia antiga, obviamente anterior ao desaparecimento da vítima, o desafio era refazer a imagem dos sobreviventes no mesmo lugar, com 30 anos de diferença. A emoção dos familiares e amigos foi intensa, principalmente das mães que nunca viram seus filhos voltarem para casa e nem mesmo puderam enterrá-los. 

Neste site vêem-se todas as 17 imagens. 

Neste outro, o vídeo mostrando a recriação das imagens e os nomes das vítimas. 

quarta-feira, 7 de março de 2012

Menino Antigo - do Baú

Again, o meu texto preferido.


O menino não descia as escadas, ele escorregava pelo corrimão de madeira quando os outros não estavam vendo. Os outros eram sempre as pessoas grandes: a avó, o pai enorme, a mãe e Nhanhá. O pai era tão grande e tinha uma voz tão alta que o menino não chegava perto do pai, não. Será que pé de pai bravo mata menino arteiro? A mãe, com a barriga enorme novamente, vivia sempre cuidando do irmão mais novo ou enfiada na cozinha com Nhanhá. “Menino não pode”, “menino não faz”, “menino não grita”, “menino não corre”, “menino não sobe”. O menino aprendeu a conviver com um monte de “não”. Aprendeu também a criar para si um bocado de “sim”, debaixo e em cima dos abacateiros, na margem e dentro do riacho, fingindo que voava na gangorra do pé de manga, vendo estranhos desenhos de assombrações nas nuvens, pulando com os bezerros no pasto molhado de sereno. E o menino corria só pela casa grande inventando brinquedos e amigos. Seria o mais velho de vários irmãos e irmãs, mas ele ainda não sabia. Como primogênito, herdou toda a repreensão e a inabilidade das pessoas grandes e todo o espaço do mundo para correr e toda a imaginação possível para fantasiar na sozinhez dos lugares vazios e toda a alegria de um menino daquela idade crescendo livre na cidade do interior.

O menino ficou aprisionado na casa grande. Os irmãos vieram, cresceram, cada um seguiu um rumo, os pais mudaram – tornaram-se mais brandos com o tempo, ficaram mais doces com os netos, viraram palhaços para os bisnetos. E o menino não cresceu. O menino corria e descia o corrimão da casa grande sempre escondido, esperando pelo “não” . E se escondia debaixo da cama de Nhanhá com a lata de doces feitos pela avó, com o risinho no canto da boca e o ouvido atento aos passos das pessoas grandes que se vissem diriam o habitual “não”. A avó morreu há muitos, muitos anos, e o menino ainda deitava a cabeça no colo dela nas noites de tempestade e se encolhia feito um gatinho enquanto a velha passava as mãos em seus cabelos cantando cantigas tão antigas que ele nem sabia repetir. E o menino adormecia no colo quente da avó, embalado pelas canções de outras infâncias.

A casa mudou, foi pintada, reformada, construíram anexos, tiraram um quartinho dos fundos, trocaram a varanda de lado. Virou lugar de veraneio para a família. E o menino ainda vivia na casa antiga e só descia as escadas escorregando pelo corrimão, sempre atento, esperando pelo “não” das pessoas grandes que nem existiam mais.

Houve uma época em que o menino congelado no tempo e a casa que continuava a mesma por décadas, viveram histórias que nem existiram. Transformaram-se em cenários e protagonistas de aventuras ambientadas naquele tempo que era só deles. E foram lidos por meninos pequenos e grandes mundo afora.

Muitos anos se passaram quando o menino começou a se ausentar da casa grande. Ele, que nunca tinha saído dali durante quase um século, queria roubar a lata de doces, mas desaparecia antes de chegar à despensa. Tentava alcançar os abacateiros, mas eles ficaram muito altos, muito longe e embaçados. O rosto das pessoas grandes piscava e desaparecia, ele não conseguia mais enxergá-las por inteiro. Como era mesmo o cheiro da mãe? E os desenhos daquele vestido que a avó vestia sempre? Depois de um tempo, o menino passou a aparecer apenas em flashes rápidos, em relâmpagos que não completavam nem uma partida de bolinha de gude. Um dia, como uma bolha de sabão, ele desapareceu e não voltou mais.

[Cristiane Magalhães. Este texto foi publicado em 28.03.09, no site Crônica do Dia]

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O conto Menino Antigo foi inspirado nas leituras de Marcel Proust, mais precisamente no livro “No Caminho de Swann: em busca do tempo perdido”. Nele, Proust usa o duplo sensação-lembrança para escrever a sua obra. Menino Antigo é uma metáfora e, também, uma brincadeira com a temática da memória. O menino que não cresce, como as lembranças que não ficam velhas. A memória pode ficar estacionada em qualquer tempo, em qualquer espaço, basta que se queira fazer o esforço de rememorar. O poeta Carlos Drummond de Andrade usou largamente este recurso para escrever muitas de suas poesias, elas estão reunidas mais precisamente nos livros “Boitempo I e II”. Nas suas poesias ficaram imortalizados um casarão antigo na cidade de Itabira, onde o menino Drummond cresceu (hoje virou um espaço cultural), assim como o pai sempre distante, o irmão “José” metido a valentão, uma cidade bucólica e romântica do início do século XX que talvez só tenha existido mesmo nas lembranças infantis do adulto poeta, a escola onde aprendeu as primeiras letras, um santeiro, o Alfredo Duval, e muitas outras reminiscências.

Leia o conto como se você fosse este Menino Antigo que tivesse ficado preso no tempo. Em qual tempo quereriam brincar as suas memórias? Por quais corrimões escorregariam as suas lembranças?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ave, Memória! Roseira Medieval



Uma roseira velha: Junto à Igreja de Hildesheim, Alemanha, existe uma roseira brava, plantada por ordem do Imperador Carlos Magno (742-814), se é certo o que pretende a tradição local; mas como a roseira sai de uma abertura feita de propósito na parede da igreja, parece verdade que ela já existia antes da edificação desta, que é antiguissima. O tronco, da grossura do corpo de um homem, atravessa a parede, que tem 1,50m de espessura e divide-se em cinco galhos, cujas ramificações cobrem a parede, contra a qual são sustentadas por uma latada vertical de ferro, com sete metros de altura, por oito de comprimento, mandada fazer, como consta dos papéis da Igreja, pelo Bispo Hepilo, isto é entre os anos de 1054 e 1099. Desde o século 13º esta roseira é considerada como uma maravilha. 

Fonte do texto: Revista de Horticultura. N 6, de junho de 1876. p. 105.
Imagem recente da Igreja com a roseira daqui

domingo, 22 de janeiro de 2012

Buritis Altos, cabeceira de veredas

"buriti  – verde que afina e esveste, belimbeleza".

Precisei estar longe, muito longe de casa para encontrar o que imaginava andar por perto. Os buritis, eu os encontrei nas terras quentes-úmidas do norte. Os buritis das minhas paisagens imaginárias de uma Minas Gerais que conheci apenas na narrativa fantástica de Guimarães Rosa. 

"Saem dos mesmos brejos  – buritizais enormes. Por lá, sucuri geme". 

A cada vez que estou longe, é que fico mais perto... de mim. O que é longe? Longe de onde? Longe de quem?

"Buritizal vem com eles, buriti se segue, segue. Para trocar de bacia o senhor sobe, por ladeiras de beira-de-mesa, entra de bruto na chapada, chapadão que não se devolve mais. Água ali nenhuma não tem  – só a que o senhor leva. Aquelas chapadas compridas, cheias de mutucas ferroando a gente. Mutucas!"

Eu vi a sombra do buriti e aquilo me encheu de uma alegria infantil. Não fugimos de nós mesmos, às vezes, apenas conseguimos nos escondemos um pouco. 

"Buriti, minha palmeira,
lá na vereda de lá
casinha da banda esquerda,
olhos de onda do mar..

Mas os olhos verdes sendo os de Diadorim. Meu amor de prata e meu amor de ouro. De doer, minhas vistas bestavam, se embaçavam de renuvem, e não achei acabar para olhar para o céu".

Eu, besta, ali parada no meio do dia quente olhando o buriti, a sombra do buriti, o fruto do buriti. Era buriti mesmo? Aquele ali era um pé de buriti? A moça do meu lado sorriu e disse sim. Fruto bom de fazer sorvete, ela contou, de fazer farinha igual açaí. Sorvete de buriti! Gostei antes de sentir o sabor. Ela nem imaginava para onde eu estava sendo transportada naquele momento.


Pois a vida é mesmo uma grande travessia. 

"Vereda em vereda, como os buritis ensinam, a gente varava para após".


* entre aspas fragmentos do romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Arcanjo Miguel

Azulejo em parede de Colônia de Sacramento - Uruguai
outubro/2011

Perseverança!
Porque eles estão continuamente por perto.

Caixa Preta

Já contei algumas vezes da minha mania de fixação em um escritor ou cantor e de querer "esgotar" o que tal eleito da vez produziu. A época de José Luis Peixoto passou, agora, ando fallen in love por outro escritor. 

Amós Oz é israelense e esteve no Roda Viva da última segunda-feira. No ano passado, tinha me encantado pelo jeito dele de escrever e, depois de ouvi-lo, fiquei ainda mais encantada. Amós Oz é de uma delicadeza e gentileza no jeito de se expressar que impressiona. Mas o que me cativou mesmo foi sua tolerância e esperança no ser humano, apesar de sua história de vida trágica e dos conflitos que vivencia desde a infância em Israel. A entrevista está disponível no site da Cultura, neste link

O seu livro A Caixa Preta (que gostei muito) será filmado em breve. Resta aos interessados aguardar, pacientemente. 


"Que segredos pode conter a caixa-preta de um avião que caiu? Revelações sobre as razões da queda, gritos de horror, pânico, tentativas desesperadas de salvação: vestígios da catástrofe. O romance do israelense Amós Oz tem tudo isso, mas a caixa-preta a que se refere o título não pertence a um avião, e sim a uma relação amorosa desfeita. Anos depois do divórcio escandaloso, a esposa rejeitada Ilana emerge das cinzas do tempo, da distância e do rancor para passar a limpo seu casamento com Alex Guideon, professor e escritor mundialmente famoso.
Com dinheiro, Alex tenta silenciar o passado que sangra. Mas as coisas mudaram. Entre ele e a ex-mulher, agora há também Boaz, filho dos dois, explodindo de juventude e violência, e Michel Sommo, o novo marido de Ilana, burocrata medíocre e fanático religioso. Todas essas vozes, com suas melodias diversas, matizadas às vezes pelos tons mais sombrios da sexualidade (ninfomania, sadomasoquismo, voyeurismo), são brilhantemente orquestradas pelo autor, que aqui se vale da clássica forma do romance epistolar. As várias primeiras pessoas revelam-se por si mesmas, em secos telegramas, bilhetes mal escritos ou longas cartas.
Ao mesmo tempo, por trás de paixões pessoais tão intensas que beiram a loucura, desenha-se com precisão o complexo panorama social, religioso e político da vida em Israel nos últimos anos. Fortemente erótico, mas também engraçado e poético, A caixa-preta só revela aos poucos sua sabedoria mais funda e amarga: somente a proximidade da morte e a consciência da finitude do corpo podem apaziguar as paixões. Aquilo que parecia apenas uma enlameada rede de intrigas, por meio da solidariedade que lentamente une essas personagens desgraçadas, reveste o livro de uma terrível dignidade. Além de ser inesquecível, este romance conquista algo raro - grandeza humana."

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Caso de amor

O meu caso de amor com os jardins vêm de longa data. Tive a sorte de ter vivido a infância numa cidade pequenina, do interior de Minas Gerais, criada em casa de rua de terra, com muitas árvores por perto e um rio correndo estreito - assoreado - na nossa porta. Minha relação com a natureza é algo profundo, visceral, tanto que não conseguiria dizer ao certo quando foi que a paixão pelos jardins transformou-se em tema de pesquisa. Fato consumado, sou uma historiadora que estuda jardins, algo incomum entre os colegas de profissão. Tenho encontrado nos arquitetos diálogo mais afinado. 

Há um tempo escrevi aqui sobre a paixão pelos jardins. Neste época era apenas um sonho poder estudar os jardins. Sonho gestado desde 2005 e concebido em 2010. Em outro momento, expressei o desejo de ter uma casa com jardim e cachorro. Sonho sonhado é sonho realizado. Em meados de 2011, deixamos BH e mudamos para o interior, para uma casa com quintal generoso. A primeira medida foi arrumar um cachorro. Nossa menina vai fazer 8 meses! Uma mocinha já, experta e inteligente (dentro dos parâmetros dos cachorros, claro). Chegou com um mês, um dia antes do meu aniversário, uma bolinha de pelo assustada e arredia.

Faltava, então, o jardim... mas um jardim, como já escreveu Rubem Alves, antes de existir de fato, deve existir no coração da gente.


"Faz de contas que a sua alma é um útero. Ela está grávida. Dentro dela há um feto que quer nascer. Esse feto que quer nascer é o seu sonho. Quem engravidou a sua alma eu não sei. Acho que foi um ser de um outro mundo... Imagino que o tal de “Big-Bang“ a que se referem os astrônomos foi Deus ejaculando seu grande sonho e soltando pelo vazio milhões, bilhões, trilhões de sementes. Em cada uma delas estava o sonho fundamental de Deus: um jardim, um Paraíso... Assim, sua alma está grávida com o sonho fundamental de Deus. Mas toda semente quer brotar, todo feto quer nascer, todo sonho quer se realizar. Sementes que não nascem, fetos que são abortados, sonhos que não são realizados, se transformam em demônios dentro da alma. E ficam a nos atormentar. Aquelas tristezas, aquelas depressões, aquelas irritações - vez por outra elas tomam conta de você – aposto que são o sonho de jardim que está dentro e não consegue nascer. Deus não tem muita paciência com pessoas que não gostam de jardins" (...). Escreveu o Tio Rubem. 


Mas ter um jardim não é tarefa fácil, tenho descoberto nas minhas lições de jardinagem. Como em 2011 praticamente não fiquei em casa, minhas plantas, a dos vasos que eu sempre carreguei comigo para onde mudei ou aquelas que fui acumulando a cada ida ao mercado, ficaram relativamente abandonadas (relativamente porque o meu marido deu assistência a elas naquilo que é básico, a rega). Descobri que plantas não necessitam apenas de água para sobreviver. Precisam ser trocadas de vaso regularmente - à medida que crescem e precisam de mais espaço; necessitam, também, de retirada das ervas daninhas e da folhas mortas; elas sentem falta de se adicionar terra vegetal de tempos em tempos e de ter um pouco de sol uma parte do dia. Cada planta gosta de um ambiente e vou revezando as minhas para que elas se adaptem a esta nova casa, ao clima mais ameno do sul de Minas, às condições de umidade da região, etc. Mas das necessidades delas o que mais me preocupa são as pragas. As minhas foram atacadas por duas delas: o pulgão e a ferrugem. Das formigas eu nem digo, porque estas consegui manter a distância usando K-othrine de tempos em tempos. 

Os pulgões gostaria de ter tratado com inseticidas naturais (fumo curtido no álcool), mas na ocasião que elas foram atacadas (em outubro) estava na "estrada" ainda e não tinha tempo para preparar o remédio natural, então, fui pelos meios mais convencionais e menos adequados para se cuidar de plantas, que são os inseticidas vendidos em lojas especializadas. Infelizmente, os inseticidas matam os pulgões, mas também as abelhas e borboletas que vivem das plantas. Só utilizei pesticida químico porque minhas plantas são de ambientes internos e nunca vi abelhas, borboletas ou beija-flor por aqui, senão teria sacrificado as plantinhas.

Estas experiências estão me ajudando a compreender que jardinagem é prática complexa. É necessário ter paciência e disposição. É preciso ter cuidados e conhecimentos. Por exemplo, neste meu jardim que ainda é um sonho não terão plantas tóxicas, já que a Anouk (nossa cadela) terá acesso a ele. Quando se planta um jardim é preciso atentar para o fato de que algumas plantas são venenosas e causariam malefícios aos animais domésticos. Outro fator é escolher as plantas que se adaptem a cada ambiente. Na região onde moro atualmente acontecem geadas no inverno, portanto, não posso cultivar plantas que não sejam resistentes a elas, senão, anualmente terei que trocá-las. Há plantas que gostam de sol incidente, outras de sombras e uma infinidade mais de informações que vou aprendendo nesta experiência particular.

Na prática de pesquisa, sempre entendi como necessário ter uma experiência aprofundada com os objetos pesquisados. Por exemplo, quando estive no Amapá, embrenhei-me pela floresta, atravessando rios e comendo as comidas típicas de lá (tacacá, tucupi, maniçoba, açaí puro). Da mesma forma quando viajei a outros Estados, com risco de infecções intestinais... como aconteceu em Sergipe e em Belém.

No caso do estudo dos jardins, a experiência pessoal tem me ajudado a compreender a prática dos jardineiros e o manejo dos jardins históricos. Minha compreensão atual - que ainda é bastante insipiente -  é bem distinta daquela academicista que eu tinha no início de 2010, quando iniciei o doutorado.

Não vou me alongar mais, chega de papo, vamos às minhas meninas (clicando em cada imagem elas são ampliadas). 


 
Esta era a visão do quintal quando mudamos. Muito mato, mas o meu "jardineiro fiel" tratou logo de começar a derrubá-lo.

  
Imagem recente do quintal, sem o mato. Faltam apenas uns últimos cuidados para começar o preparo do jardim. Nossa Anouk acha que ali é o playground dela.

  
A violeta chegou na semana passada, depois de uma volta no supermercado. Esta do lado pensei que fosse uma flor de pedra (Echeveria glauca) e plantei numa jardineira, mas ela foi crescendo, crescendo e descobri que era uma crássula ou planta fantasma (Graptopetalum paraguayense), ou seja, uma suculenta pendente que necessita ficar suspensa para cair... troquei de vaso e cada folha que cai brota outra. Está uma lindeza! Com esta história estou perdida de amores pelas suculentas. Minha preferida é a tal flor de pedra, a que eu tinha morreu, acho que por excesso de água quando estava ausente. Vou providenciar outras em breve.

  
Ontem, depois de outra ida ao supermercado, voltei para casa com esta beleza parecendo um pequeno bouquet laranja (flor calandiva ou Fortuna, que também é uma suculenta!). É um tormento, toda vez que vou ao supermercado adoto alguma. Esta do lado direito veio de BH, foi um presente de um amigo e está conosco há uns 3 anos. Já mudei de vaso umas 4 vezes e ela só cresce. Esta foi infestada pela ferrugem, perdeu todas as folhas. Trocamos ela de lugar, para ficar perto da janela, e ela brotou de novo.

  
Do lado esquerdo meu vaso "sete ervas", que fica bem na frente da escada, mas das plantadas originais restaram apenas três. O manjericão e o alecrim morreram. Ficaram a pimenta, arruda e espada de São Jorge. Há, ainda, outro vaso desta modalidade que ganhei de uma vizinha, com guiné e comigo-ninguém-pode. Do lado direito meu xodó, um mini-cacto que ganhou vaso novo no final de semana, já que está crescendo.

 
Parte das minhas meninas juntas depois de um trato no domingo. Todas ganharam vasos novos e terra vegetal. Do lado direito pitangas no jardim para deleite dos passarinhos.

  
Imagem das trepadeiras com pulgão. As fotos foram feitas antes de aplicação do inseticida. Agora eles já se foram (e espero que não voltem).

   
Temos uma parreira em casa e ela está dando tanta uva que vou distribuir com os vizinhos... até o Natal não vou precisar comprar uvas no mercado.

  
Minhas bromélias não se adaptaram ainda ao clima daqui. Tenho cinco vasos delas, que foram desmembradas de uma única que ganhei em 2009. Mas elas estão feias, não sei o que fazer para ficarem belas. Do lado direito, a trepadeira em imagem recente, depois da infestação dos pulgões. Esta também veio de BH.

  
Esta da esquerda, "dedinho de moça" foi outra surpresa, comprei junto com a suculenta de cima, ambas bem pequetitinhas e plantei-as juntas na jardineira achando que ficariam pequenas. Foram crescendo e tive que dar vasos individuais a elas para ficarem no alto e caírem. A da direita era um vaso lindo que comprei perto do dia das  mães (esqueci o nome), dividi em três vasos, mas os outros dois morreram. Esta ainda está resistindo, mas bem fraquinha. Mudei de lugar, coloquei perto da janela e vamos ver se ela reage, pois na época que comprei li que necessitava de sol pleno. 

 
A da esquerda, flor da fortuna (Kalanchoe blossfeldiana) estava aqui na casa quando mudamos, completamente seca, não tinha um galho verde. Fui molhando, deixando no sol pela manhã e retirando a tarde até que uns galhinhos verdes apareceram. Mantive o processo de regar todo dia e sol de manhã e sombra a tarde. Resultado: já mudei de vaso três vezes! Ela não pára de crescer. Esta também foi infestada por pulgões e por formigas. As formigas adoram a terra desta planta, não sei o motivo. Ela até já deu flor neste curto espaço de tempo em que reviveu. A da direita é a mesma história das suculentas, cresceu e agora reina absoluta numa jardineira só dela (ainda não consegui descobrir o nome dela, se alguém souber). 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Ave, Memória! Jardim colonial


No Ave, Memória! de hoje trago um fragmento do relato do alemão Eschwege(1), datado de 1811, quando este percorreu Minas Gerais e esteve em Congonhas do Campo. O fragmento original está na Revista do SPHAN, número 03, ano 1939, p. 175, no artigo intitulado "O primeiro depoimento estrangeiro sobre o Aleijadinho"

No relato, Eschwege descreve um "gracioso jardim, igualmente provido de estátuas, repuxos e altas euforbiáceas". Relatos posteriores ao de Eschwege (Saint-Hilaire, Weech, Freyreiss,  Luccock, Burton e outros) nada dizem deste jardim colonial. 

As Euforbiáceas ou Euphorbiaceae abrangem uma infinidade de plantas, incluindo a seringueira (Hevea brasiliensis), a mandioca-brava (Manihot utilissima Pohl), a mamona (Euphorbiaceae-Ricinus communis), bem como arbustos, ervas e trepadeiras. No total, são mais de 200 gêneros que inclui quase 6 mil espécies. A família da Euphorbiaceae também inclui flores, como a conhecida "flor do Natal" ou papagaio, muito comum nesta época do ano. Ou a decorativa acalypha hispida. Por causa desta imensa variedade, é difícil dizer o que de fato havia no jardim gracioso visto e narrado por Eschwege, em 1811.

Fato é que ao lado da Igreja e das esculturas de Aleijadinho, enquanto o artesão esculpia cuidadosamente as suas peças, era cultivado um jardim que mereceu relato do viajante alemão.

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1 O Barão Guilherme Luís de Eschewege publicou, em Alemão, o livro Pluto Brasilienses, e realizou uma descrição detalhada da Província de Minas Gerais no século XIX. O livro foi traduzido para o português e publicado pela Revista do Arquivo Público Mineiro, em edições de 1897 e 1898. Eschewege era engenheiro militar a serviço da coroa portuguesa no Brasil, exerceu as funções de cartógrafo, escritor, geólogo, mineralogista e foi autor de vários livros e mapas sobre Minas Gerais.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Jardins são Patrimônio?

Quais os significados e os sentidos de Patrimônio Cultural? Um bem tem valor em si mesmo ou todo valor é atribuído? A construção da idéia de Patrimônio Cultural e sua valoração e salvaguarda é sempre questão de política pública formulada por determinados grupos intelectualizados? Quem elege o que é Patrimônio e por que elege? Nas discussões patrimoniais, na elaboração dos Inventários, nos textos teóricos e na prática dos Institutos preservacionistas brasileiros o que se percebe é que, na maior parte das vezes, parte-se de uma pré-definição destas problematizações como algo que estaria dado a priori. As políticas relacionadas ao Patrimônio cultural são cercadas por campos de tensão entre os diferentes grupos e linhas teóricas a que filiam cada um destes grupos no seu jeito de selecionar e de preservar e estão impregnadas por conotações econômicas (turísticas principalmente), políticas e culturais, marcadas pelo tempo presente. (...)

Conto melhor esta história no artigo: A Chancela da Paisagem Cultural Brasileira e os Jardins Históricos, originalmente apresentado na ANPUH, em São Paulo, em julho de 2011.

sábado, 5 de novembro de 2011

Pares

"É preciso aceitar ser finito: estar aqui e em nenhum outro lugar, fazer isto e não outra coisa, agora e não sempre ou nunca (...); ter apenas esta vida". p. 44.

Do filósofo, jornalista, marxista convicto André Gorz, um dos mais renomados intelectuais franceses do século XX, no livro Carta a D - História de um amor. Porque eu já quis fazer tudo ao mesmo tempo, porque já corri muito, porque acreditava que era preciso fazer mais e fazer mais e fazer mais para chegar a algum lugar que eu nunca soube exatamente onde era, porque não acredito em alma gêmea ou amor eterno ou qualquer coisa que seja pra sempre, este foi um dos mais inusitados textos lidos nos últimos tempos. Não sei se impressiona mais o texto ou o desfecho da história do casal, logo após a publicação do livro. O que sei é que este é um daqueles livros que nos faz, aos trinta, refletir sobre o que de fato vai continuar importando aos sessenta... Ou talvez porque exatamente nesta semana revi "O paciente inglês" e "O céu que nos protege", um depois do outro, e assim encadeados, os filmes, o livro e algumas reflexões funcionem como um vento soprando uma mensagem sutil que fica cada vez mais clara: é chegada a hora. Ou talvez seja só mais este final de semana sem sentido em Campinas, quando queria era mesmo estar em outro lugar, mesmo sem conhaque ou a influência da lua, tudo isto, como escreveu Drummond, botam a gente comovido...

Fotografia: André Gorz e a sua Dorine. 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Um olhar sobre os Jardins Históricos

Acontecerá, no Rio de Janeiro, o Segundo Simpósio Arqueologia da Paisagem: um olhar sobre os jardins históricos, nos dias 24 e 25 de novembro de 2011. 


O Simpósio se realizará no: Auditório da Casa de Rui Barbosa Rua São Clemente, 134 - Botafogo/Rio de Janeiro

Informações/inscrições
Profissionais: R$ 70,00 - Estudantes R$ 35,00
Banco do Brasil
Agência 1826-0 - Conta 14.701-X
arqueologianapaisagem@gmail.com

Realização
Escola de Belas Artes - EBA/UFRJ

Organização
Grupo de Pesquisa História do Paisagismo (GPHP – EBA/UFRJ)

Coordenadores
Profª Me. Jeanne Trindade (Universidade Estácio de Sá – PCRJ/GPHP)
Prof. Dr. Carlos Terra (EBA-GPHP/UFRJ)

A programação está imperdível para os estudiosos da temática. Quem tiver interesse, deixe uma mensagem neste post com o e-mail que enviarei as informações de programação completa e o formulário para inscrição.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Geografias do medo

Porque ainda há vozes que devem ser ouvidas neste mundo maluco que construímos para viver.

O escritor moçambicano Mia Couto na Conferência de Estoril - 2011:


MURAR O MEDO
O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.
O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

domingo, 18 de setembro de 2011

Navio de Teseu

Vêm de longe estas minhas inquietações com as tramas da memória e suas finas costuras, mas foi um fato ao acaso que colocou fogo nesta brasa morna. Em 2006, realizava as últimas pesquisas de campo para a reta final de Mestrado, que foram as entrevistas com ex-operários(as) da Fábrica de Tecidos que eu estudava. Aconteceu, então, um fato curioso que tirou do prumo as minhas predefinições tão redondinhas a respeito da memória. Até então, acreditava que a memória era uma caixinha intocável e imutável que tinha ficado guardada no passado e que nada e nem ninguém do presente podia modificar estas lembranças antigas, amarradas com laço de seda colorido, cheirosas e bem conservadas em algum canto dentro de nós. Como uma música presa num CD ou Vinil ou K7, bastava apenas apertar os botões certos que teríamos acesso a todas as lembranças do passado. Foi então que esta certeza desmoronou como um dominó e é esta história que passo a narrar a seguir.

No conjunto de ex-operários(as) que consegui mapear para as entrevistas, todos bastante idosos, um fato dividiu-os em dois grupos distintos. Todos eles tinham histórias de vida bastante comum: a maioria tinha nascido no núcleo fabril ou ido para lá muito jovem, com seus 12 a 15 anos de idade, e passado a vida inteira em função do trabalho operário. Os que tinham nascido ali, no núcleo formado ao redor da fábrica, os pais também tinham sido operários. Grande parte das operárias tinham se casado com operários e tido seus filhos no núcleo, muitos deles também foram inseridos no trabalho fabril. Desta forma, o histórico familiar se entrelaçava com a própria história da Fábrica de Tecidos.

Contudo, neste conjunto um grupo tinha recordações e memórias felizes da fábrica e do seu tempo e o outro, do lado extremo, memórias de muita mágoa e revolta. Como poderia ser isto, já que todos tinham tido uma experiência muito parecida no núcleo? Tinham vivenciado o mesmo período, mas as lembranças que tinham armazenado eram completamente opostas.

Aos poucos, durante as entrevistas orais, fui compreendendo o que diferenciava um grupo de outro e tinha transformado as lembranças da mesma Fábrica, num mesmo marco temporal, em coisas tão distintas. O fato que marcava este rompimento tinha acontecido em 1962. Neste ano, a Fábrica foi vendida a um dos empresários da família Mascarenhas e, durante dois anos, até 1964, a Fábrica foi sucateada na pior acepção do termo: o maquinário que existia até então foi levado embora e outro, mais velho e defeituoso colocado no lugar, a água que abastecia o núcleo fabril foi cortada e os operários que viviam ali com suas famílias tinham de ir buscá-la distante, os pagamentos começaram a ficar atrasados até que foram suspensos efetivamente e, por fim, um dia chegaram para trabalhar e a Fábrica tinha sido fechada e decretada sua falência. Nada mais restava a fazer. Os muitos operários que tinham permanecido ali por uma vida inteira não tinham dinheiro, pois não recebiam salário há meses, não tinham para onde ir, não tinham água ou comida a dar aos seus filhos e este fato fez toda a diferença, alterando todo o passado e mudando substancialmente o que eles se lembravam deste passado.

Os operários que tinham lembranças afetivas e que concordaram em contribuir com a pesquisa emprestando fotografias, poemas e dispondo de tempo para as longas entrevistas tinham saído da Fábrica antes da venda e do início do seu sucateamento, em 1962. Umas operárias tinham se casado, outros tinham mudado de cidade com a família, enfim, este grupo das memórias da saudade e que contavam daquele tempo com lágrimas nos olhos de felicidade não tinham vivenciado os últimos dois anos de existência do núcleo fabril.

Do outro lado, estavam os operários que ficaram até 1964. Estes se recusavam a dar entrevistas, quando eu as consegui foi por muita insistência, gravador desligado, de pé na porta das casas ou no meio dos terreiros. Alguns bateram o telefone antes de eu completar o motivo da ligação e explicar da pesquisa. Havia mágoa e rancor naqueles olhares. Havia um desejo que as perguntas acabassem logo, eles não queriam conversar, não queriam rememorar, deixavam a TV ligada e ficavam olhando para a tela ou ouvindo rádio ou gritando com o cachorro, as crianças, enquanto eu pacientemente ia perguntando e recebendo respostas evasivas. Alguns perdiam a paciência e para se verem livre de mim logo contavam numa enxurrada o que tinha acontecido naqueles dois últimos anos, das dificuldades, dos maus tratos dos novos proprietários, das humilhações, da fome dos filhos, de não ter o que fazer e não ter dinheiro ou indenização alguma para seguir em frente após o fechamento e alguns choraram. Choraram não de saudade, como acontecia ao outro grupo, choravam de dor. Um dia eu chorei junto com uma senhora que contou como o marido tinha enlouquecido, ido morar nas ruas e morrido tempos depois e ela, sozinha, tinha criado os filhos que também tinham se perdido depois daquela “tragédia”. Esta mulher, mesmo passados mais de quarenta anos do ocorrido não tinha superado as perdas. Parecia que arrastava correntes e as lembranças tinham consumido sua carne até os ossos, ela era muito magra, os olhos fundos, muito tristes e desolados.

Para aquele grupo, o tempo da Fábrica era tempo de esquecimento e não de rememoração. Depois que eles contavam o que tinha acontecido nos dois últimos anos e as sucessões posteriores, eu tentava ainda puxar um fio mais longo, para ver se relembravam do tempo de antes, da história dos antepassados que tinham sido os primeiros operários, mas não adiantava. Aquele fato tinha marcado todo o resto como um corte, um rasgo profundo, eles só conseguiam se lembrar das coisas ruins. Quando eu descrevia alguma festa religiosa que outros operários tinham narrado e mostrava as fotografias, eles paravam, me olhavam, olhavam a foto e diziam que não se lembravam. Eles tinham apagado completamente as lembranças boas do tempo da Fábrica! Era como se tivesse existido duas Fábricas completamente distintas.

Esta experiência me marcou profundamente e na ocasião da Dissertação não soube o que fazer com ela. Havia também o fato de que isto não era meu objeto de estudo e estava num marco temporal que não era o que tinha estabelecido. Outro fator que pesava é que estes operários das lembranças trágicas não concederam entrevistas formalmente e não assinaram o termo de cessão de direitos, logo, não poderia utilizá-las para o trabalho. Estava na reta final e tive que deixar de lado estas histórias, mas nunca as esqueci.

É possível, então, que um fato no presente possa mudar toda uma memória passada? A memória não é esta caixinha linda e perfumada que guardamos com mãos de ternura dentro de nós? O passado pode ser alterado por conta de uma ruptura no presente? As memórias não estão gravadas num CD imaginário e basta ter o instrumento correto para elas serem executadas, encadeadas, uma a uma? Estas histórias que narrei e tudo que tenho observado desde então em minhas pesquisas – e na minha própria vivência – apontam que sim. A memória – e o passado, não são imutáveis, não são estáticos, é o presente que resignifica, modifica, dá a eles lugares distintos constantemente. E se assim não o fosse, não faria sentido o papel do historiador. Por que não é isto que fazemos o tempo todo? Jogamos luz e damos novos significados a um passado que não existe mais, mesmo sabendo da impossibilidade de apreendê-lo em sua singularidade e totalidade.

Levando ao extremo estas hipóteses: se o PUC, o nosso cãozinho querido, tivesse mordido minha irmã mais nova um dia antes de ser levado para o sacrifício e isto tivesse se desdobrado em outras fatalidades, mudaria o amor e as lembranças boas que o dedicamos? Caso tivéssemos descoberto que minha amada avó envenenou o meu avô, que horror!, mudaria as lembranças afetuosas e tão saudosas que temos dela? Não lembraríamos mais do cheiro do seu café, do cabelo em coque, do vestido azul velho e surrado?

Tenho cá comigo que a memória, enquanto existirmos, será este constante por fazer. Bordado de Penélope, trança sem fim. Ela está sendo tecida agora, enquanto narro estas histórias, se refazendo, se acomodando. Com estas reflexões adentro a outra face da memória: o esquecimento. Operações complementares, vias de mão dupla, um não existe sem o outro. Mas este é tema para outra conversa.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Sou recordações

Da minha janela me chega um cheiro de cachorro. Sinto-o distintamente dos outros cheiros trazidos pelo vento, quase materializado na forma de um cão, posso tocá-lo até, ver com a lembrança. A pitangueira em flor, as muitas árvores que margeiam a rua, o pequeno riacho que corre logo ali depois das árvores, os odores das refeições das casas vizinhas, o cheiro de pão da padaria da rua de trás, nada me desperta os sentidos como este forte cheiro de cachorro. É o cheiro do Bacco que corre e faz festa ao redor da casa, mas o que vejo não é o Bacco, é outro cão. Um cão marrom, do rabo peludo que fazia um arco no ar, de orelhas grandes e caídas. Grande no tamanho, mas ainda é um moleque nas brincadeiras. É doce o meu Puc, é assim que o chamo na minha lembrança: Puc, o cão que mais fortemente marcou aquele tempo. O cheiro de cachorro, a memória que me vem do Puc, é apenas um artifício simbólico para puxar um fio imaginário e comprido que me leva à infância. Lá também tinham muitas árvores, não pitangueiras, mas abacateiros, mangueiras e um pé de jatobá. Tinha também um paineira, em que um pica-pau, certa vez, resolveu bicar num domingo de sol. Neste lugar outro que é a infância, tinha também um rio depois da rua de terra. A terra era vermelha e pegajosa, grudava nos pés, na roupa, nas paredes, tingindo tudo como nos filmes de Almodóvar. O Puc é uma das lembranças mais felizes e mais doloridas deste tempo que se abre como uma fenda por detrás dos ombros. Nesta perspectiva, o Bacco é apenas um mediador daquilo que de fato quero ver, assim como a Cruz é para o Cristo. Olhamos a Cruz e não vemos a madeira sobreposta, vemos o Cristo crucificado e todas as simbologias criadas em torno de sua história durante séculos e séculos. Tantas dobras para chegar a isto: a Cruz não é mais a Cruz, ela É o Cristo. Sinto o cheiro do Bacco que adentra minha janela e a cortina se abre, vai começar o espetáculo, um palco cheio de lembranças me convida para assistir à encenação. O Puc era pequenininho quando chegou em casa e teve que ser sacrificado, alguns anos depois, por conta de uma doença. Neste instante eu sinto a dor física do dia que foi enviado para o sacrifício, o Puc, o nosso companheiro, uma das lembranças mais alegres da minha infância. O cheiro que vem pela  janela fica mais forte e eu preferia sentir o perfume da pitangueira, mas a memória é seletiva, direciona o olfato. "Abafa o insuportável mau cheiro da memória". Todos os cães que vieram depois do Puc era ele revisitado, é do Puc que me lembro. É fácil amar aos outros cães, porque eu o amei primeiro, um amor infantil, inocente, totalmente dedicado. É este amor inaugural que acesso para os cães que vieram depois do Puc. A memória intermedia o sentimento materializado no presente. Mas é preciso fechar a fenda do passado, ignorar os odores que chegam sem consentimento e adentrar neste presente que fervilha de obrigações. 


"Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que é ontem e o que é hoje; ele saltita de lá para cá, come, descansa, digere, saltita de novo; e assim de manhã até a noite, dia após dia; ligado de maneira fugaz por isto, nem melancólico nem enfadado. Ver isto desgosta duramente o homem porque ele vangloria-se da sua humanidade frente ao animal, embora olhe invejoso para a sua felicidade - pois o homem quer apenas isso, viver como animal, sem melancolia, sem dor; e o que quer entretanto em vão, porque não quer como o animal. O homem pergunta mesmo um dia ao animal: por que não falas sobre a tua felicidade e apenas me observas?

O animal quer também responder e falar, isso deve-se ao facto de que sempre se esquece do que queria dizer, mas também já esqueceu esta resposta e silencia: de tal modo que o homem se admira disso. Todavia, o homem também se admira de si mesmo por não poder aprender a esquecer e por sempre se ver novamente preso ao que passou: por mais longe e rápido que ele corra, a corrente corre junto. É um milagre: o instante em um átimo está aí, em um átimo já passou, antes um nada, depois um nada, retorna entretanto ainda como um fantasma e perturba a tranquilidade de um instante posterior. Incessantemente uma folha se destaca da roldana do tempo, cai e é carregada pelo vento - e, de repente, é trazida de volta ao colo do homem. Então, o homem diz: «eu lembro-me», e inveja o animal que imediatamente esquece e vê todo o instante realmente morrer imerso em névoa e noite e extinguir-se para sempre. Assim, o animal vive a-historicamente: ele passa pelo presente como um número, sem que reste uma estranha quebra". 

Friedrich Nietzsche, in 'Segunda Consideração Intempestiva'.





O bom de se ter memórias que são compartilhadas por outras pessoas é que elas nos ajudam neste processo de rememoração. Este é o nosso PUC, aproximadamente nos idos de 1991/1993. Quanta saudade! Obrigada, Fê.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Eu me lembro

Porque a memória tem sido o meu objeto de estudo. O mais precioso e inesgotável. O mais delicado e intangível. O mais fugidio e difícil de ser apreendido.

Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos.
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.

Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava,
que rebentava daquelas páginas. 

Carlos Drummond de Andrade, "Os mortos de sobrecasaca"

Em outro momento o poeta escreve como que compelido por uma lembrança que se repete, repete e não esvai: "abafa o insuportável mau cheiro da memória", porque de tudo sempre, vai ficar um pouco. 

Nós, como Ireneo Funes, de Borges, somos este amontoado de lembranças. E de nós restará, ao final de tudo, apenas um amontoado de lembranças. 

Da minha avó, do seu cheiro de fumo de rolo, dos seus óculos fundos de grau, das suas bochechas grandes e caídas, do seu vestido azul velho e surrado, do cabelo branco, longo, preso sempre na nuca num coque, dos seus silêncios prolongados sempre afundada no surrado sofá da sala, das sandálias de tiras, do jeito lento de caminhar arrastando-se, da canjica doce que sempre deixava para mim guardada no canto do fogão a lenha "guardei um pouco para você, sei que gosta, mas não tem para todo mundo", diz em sussurro, da minha velha e querida avó, dos seus sonhos, medos e crenças, da vida que existia ao seu redor, há apenas um amontoado de lembranças - que são minhas. Ela vive naquilo que eu me lembro. É minha memória que a faz ter qualquer forma de existência nesta vida. Nas marcas do meu rosto herdadas dela, os que passam não são capazes de reconhecer a minha ausente avó. Do seu sangue que corre e alimenta as minhas entranhas, nada é dito, nem imaginado. De tudo que existiu dela e que deu forma e sentido à minha existência, não é mais ela, sou eu. Eu, que também sou apenas este amontoado de lembranças e que de mim, um dia, restará tão somente fragmentos de memórias perdidas em outras vidas.


Itabira, fotografia da Matriz antiga, com o Pico do Cauê ao fundo. Foto de Brás Martins da Costa (1866-1937). Nem o Pico, nem a Matriz existem mais. Nem a cruz de madeira, nem o fotógrafo, nem as pessoas que construíram a igreja ou forjaram os sinos. Nem a câmera que captou o breve momento da imagem. O que restou disto tudo foi uma memória presa num suporte fotográfico e que o tempo deixou de herança para as nossas mãos do presente. "Fica sempre um pouco de tudo. Às vezes um botão, às vezes um rato".