
Retornei esta madrugada de mais um trabalho pelo interior das Gerais. Desta vez estive no sul de Minas numa agradável e limpa cidadezinha próxima a Caxambu e foi lá que protagonizei, num momento ‘Triller’, uma cena que foi incluída na galeria dos Medos inesquecíveis que passei em trabalhos com o Patrimônio Cultural. Vivenciar este Medo me fez recordar dos outros dois anteriores que me marcaram.
A primeira experiência ‘inesquecível’ aconteceu na bela cidade de Aiuruoca. Estive lá uns anos atrás para inventariar obras da Igreja Matriz e soube, logo ao chegar, que existia um conflito entre o pároco local e o pessoal que trabalhava com o patrimônio. Até aí novidade nenhuma, normalmente os padres são os maiores dificultadores para os pesquisadores inventariar acervos eclesiástico e, muitas vezes, são os responsáveis por execuções desastrosas de ‘restaurações’ em peças sacras, muitas delas obras raras. Inclusive, estes dias ouvi numa outra cidadezinha que o padre ao ser questionado de uma pintura horrível realizada numa imagem de Nossa Senhora da Conceição teria dito: “As imagens não são peças de museu e sim objeto de adoração, como tal, podemos pintá-las como bem entendemos”. Enfim, estamos acostumados a lidar com estas situações. Na Matriz de Aiuruoca os sinos seriam inventariados, então, conversei com o sacristão e disse que ia subir na torre para fazer o registro dos sinos, lembro do olhar dele de desaprovação, mas sem qualquer palavra. Subi as velhas e carunchadas escadas de madeira lentamente, pois elas rangiam ao toque dos pés e pareciam que iam se partir, mas lá fui eu corajosamente. Lá no alto da torre vi o conjunto de sinos. Lindos! A cidade pequenina podia ser vista daquela altura toda. As paredes da torre eram grossas, talvez mais de um metro de largura, assim, subi numa delas para conseguir ler a inscrição de um dos sinos, que ficava na parte superior dele. De um lado estava o abismo, a praça pequenina bem lá em baixo, do outro o cubículo da torre da Matriz. Como não tenho problemas com altura, fiquei anotando os dados grafados no sino, dependurada na parede da torre. De repente, o sacristão começou a badalar exatamente este sino que eu estava anotando. Os sinos tinham cordas presas ao badalo que o sacristão executava de um andar abaixo daquelas escadas carcomidas, sem precisar chegar até a torre. Podem imaginar o susto que eu tomei? No desespero pulei para dentro da torre, graças a Deus! Senão não estaria agora escrevendo. Lembro de ter ficado alguns minutos trêmula, caída no chão da torre, com o coração desgovernado ouvindo aquele replicar de sinos ensurdecedor. Nem sei como consegui descer aquelas escadas apertadas, de tanto que tremia. Quando consegui descer para a Matriz o sacristão tinha desaparecido. Recordo ainda que logo em seguida começou uma missa a São Sebastião.
O outro momento dramático aconteceu numa cidadezinha próxima a Cordisburgo. Cheguei ao quase lugarejo bem cedo e fui direto para a prefeitura. Deixei ali minha bolsa com roupas, material de campo, etc, e saí com mochila para os trabalhos do dia, como sempre acontece. No final da tarde, um funcionário da prefeitura me acompanhou até a pousada onde deveria ficar naqueles dias em que estaria ali fazendo os levantamentos. Já tinha anoitecido quando caminhamos para lá. A cidade, muito pequena, era como um quadrado de ruas paralelas. A prefeitura ficava mais ou menos no centro daquele quadrado. Caminhamos na direção leste até chegar à última das ruas do lugarejo. A pensão ficava exatamente naquela última rua. Atrás dela uma mata enorme, nas laterais terrenos desocupados. Apenas do outro lado da rua existiam casas distantes. Comecei a ficar preocupada com aquele isolamento todo, mas até aí, tudo normal. Encontrar pousadas em lugares pequenos do interior de Minas é sempre muito complicado, já me hospedei em cada lugar... Uma senhora me recebeu na pousada e o funcionário da prefeitura foi embora, então, ela me levou até o quarto reservado para mim. O que poderia chamar de saguão e recepção da pousada com um sofá e televisão, mais o refeitório ficavam na edificação principal, muito bem arrumada, em estilo colonial. Os quartos dos hóspedes ficavam do lado de fora desta edificação principal, sem qualquer ligação a ela. Comecei a ficar nervosa quando percebi que a porta do meu quarto daria para os arredores da pousada e a janela dava para aquela mata escura, mas meu desespero chegou ao extremo quando a senhora me disse: “Amanhã cedo volto para fazer o seu café”. Ela não dormia na pousada, a casa dela que ficava próxima à prefeitura não tinha telefone, o dono morava em outra cidade, não tinha nenhum outro hóspede e eu teria que ficar ali sozinha naquele ermo de mundo. Foi uma noite terrível! Obviamente não dormi, cochilava rapidamente e era despertada constantemente por barulhos externos e ranger de janelas. Mais ou menos às cinco horas da manhã levantei, olhei o que ainda faltava para fazer – era muita coisa! programando os trajetos do dia. No total seriam mais de trinta fichas de inventário, entre celebrações, bens móveis, imóveis e integrados, o acervo da igreja, o acervo do asilo e até o maquinário de uma fábrica. A parte boa era que o dia anterior tinha rendido bem. Pouco depois das sete horas saí da pousada e trabalhei incansavelmente até às 22:30, sem almoçar, parando apenas para lanches rápidos. Neste horário terminou uma reunião com funcionários da prefeitura, no qual estava o rapaz que me levaria até a rodovia mais próxima para pegar o ônibus e retornar para Belo Horizonte – em muitos lugares não passam ônibus de linha, sendo necessário que os moradores e visitantes se desloquem para as rodovias onde os ônibus trafegam em direção à capital ou outros lugares. Com o levantamento concluído, o rapaz me levou até a pousada ‘assombrada’, retirei minhas coisas e parti dali rumo a BH naquela mesma noite. Ainda sinto calafrios quando me lembro daquela noite tenebrosa.
O último top of mind aconteceu esta semana no sul de Minas. O ônibus partiria de Belo Horizonte às 23:00 chegando ao lugar às 04:00 da madrugada. Fui informada de que alguém da Prefeitura local iria me esperar na rodoviária. O trajeto do ônibus era Belo Horizonte x São Lourenço e eu deveria descer antes de chegar a São Lourenço. Coloquei o celular para despertar às 03:50 para não correr o risco de passar do meu destino e segui viagem tranqüila. Acordei por volta das 03 horas da madrugada e não dormi mais. Quando chegou ao meu destino, o motorista avisou e eu desci. A madrugada estava escura e gelada, a serração muito baixa não deixava ver muita coisa além do telhado da pequena estação rodoviária. Não tinha nada aberto, nem viv’alma por ali, nem qualquer sinal da pessoa que iria me esperar. Quando desci e vi aquela situação, me voltei para o motorista e confirmei se ali mesmo era onde deveria descer. Ele balançou a cabeça numa afirmativa. Olhei de novo em volta, parecia um filme de terror. O ônibus já ia saindo e eu voltei de novo para o motorista: “Senhor, por favor, o senhor tem certeza? Não tem nada aberto por aqui?”. Ele balançou a cabeça numa negativa. Quase implorei para ele não ir embora, mas percebendo o ridículo da situação engoli em seco e me calei e o ônibus se foi neblina adentro. Gente, que medo! Eu estava completamente sozinha, no meio do nada, numa escuridão terrível. Comecei a tremer, não sei se mais de frio ou de medo. Acho que os dois. Consegui organizar as idéias e peguei na mochila a folha da ‘logística’ que levamos sempre para campo, com o nome e telefone das pessoas que devemos procurar ao chegar à cidade. Num primeiro momento não conseguia ler nada, os olhos embaralhavam as letras e aquela meia luz fraca de postes distantes não me deixavam ler. Fechei os olhos, respirei fundo, tentei ficar calma e peguei o papel de novo. Consegui ler, mas ali não tinha nenhum número de celular, apenas telefones fixos da prefeitura. Deus do céu! Que desespero. Resolvi fazer as únicas coisas possíveis: manter a calma e a racionalidade para não ser surpreendida por alguma eventualidade desagradável. Sentei encolhida num banco de pedra molhado que tinha por ali e comecei a orar, pedindo a Deus para mandar a pessoa que iria me buscar. Uns doze minutos depois a pessoa chegou se desculpando pelo atraso e minha aflição terminou.
Adoro o meu trabalho, sou apaixonada por pesquisa histórica e como viajo bastante estas eventualidades são inevitáveis. Posso dizer seguramente que os prazeres que o meu trabalho me proporciona e as histórias de vida que tenho contato valem por cada um destes Medos - com letra maiúscula - aterradores, mas, obviamente, preferiria que eles não existissem. Há também o fato que eu costumo dizer que quando vou para algum lugar os anjos chegam antes de mim.
"Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam". Clarice Lispector em "A hora da estrela", a triste história de Macabéa.
Imagem: Edvard Munch - O Grito. 1893.
"Heal the world / Make it a better place / For you and for me"







































